Fiquei
rindo comigo mesmo criando a cena de meus familiares separando minhas coisas
após a minha morte. Todos alvoroçados como formigas comendo desesperadamente um
inseto. Separando minhas roupas escolhendo cada um alguma peça e alguém
sugerindo um bazar beneficente para os pobres, alguém experimentando meus
sapatos. Jogando meus CDs no lixo, minha irmã dizendo que o micro ondas “é
dela”, meu sobrinho concorda e lembra a todos que ele tá sem computador nem
impressora. Ninguém quer ficar com o meu aquário por que todos concordam que dá
muito trabalho.
Eu
mortinho da Silva, sem me manifestar, se bem que gostaria de levar comigo o meu
relógio de estimação, já que foi um presente da minha amada viúva. Eu do teto
dos cômodos da sala, até reconheci que o sofá d sal estava mesmo na hora de ser
jogado fora e realmente ninguém o quis, já a minha coleção de discos de vinil,
o meu cunhado que sempre dá um jeitinho de arrumar um troco, aposto que iria se
prontificar a ficar com ela, mas não pra ele: É que tem uma feirinha de
quinquilharias aos sábados na pracinha perto da casa dele e cada um dos meus
Roberto Carlos e dos meus Ray Connifs iriam morar em uma casa diferente. Fui
vendo que uns três ou quatro pares de óculos escuros foram se dirigindo quase
que espontaneamente para alguns bolsos, sempre acompanhados de um olharzinho
discreto para o lado. Provavelmente as bugigangas da cozinha não sirvam para nada,
pelo menos eu não vejo nada de interessante em um monte de panelas velhas,
garfos meio tortos e facas meio cegas, enfim... Ah, sim! Minha coleção de copos
de vinho, de uísque, tudo de cristal, se bem que nem sei se alguém lá de casa
sabe dar valor a estes detalhes, Se fosse uma coleção de copos de refrigerante,
provavelmente seria mais disputada.
E
assim prossegue o vaivém, o passar de mão em mão, o correr de olhos daqui pra
lá e de lá pra cá, enquanto alguém fala pros sobrinhos menores, irem até o
supermercado em frente para pegarem umas caixas de papelão porque todo mundo
ainda tem muito que fazer ainda mais agora na última semana da novela das nove.
Com oito notas de cinquentinha que descobriram em uma gaveta, resolveram doar
para a igreja na missa de domingo e realmente o fizeram. Doaram seis notas e
aproveitaram duas pra pedir uma pizza com umas cervejinhas.
Gente,
por favor, pode levar tudo, tudinho mesmo, até porque até o gato já se mandou
faz tempo, mas, por favor, não esqueça de que amanhã as seis da tarde é minha
missa de sétimo dia, tá!?
Sem
data
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