domingo, 18 de setembro de 2016

Formigas

        Fiquei rindo comigo mesmo criando a cena de meus familiares separando minhas coisas após a minha morte. Todos alvoroçados como formigas comendo desesperadamente um inseto. Separando minhas roupas escolhendo cada um alguma peça e alguém sugerindo um bazar beneficente para os pobres, alguém experimentando meus sapatos. Jogando meus CDs no lixo, minha irmã dizendo que o micro ondas “é dela”, meu sobrinho concorda e lembra a todos que ele tá sem computador nem impressora. Ninguém quer ficar com o meu aquário por que todos concordam que dá muito trabalho.
        Eu mortinho da Silva, sem me manifestar, se bem que gostaria de levar comigo o meu relógio de estimação, já que foi um presente da minha amada viúva. Eu do teto dos cômodos da sala, até reconheci que o sofá d sal estava mesmo na hora de ser jogado fora e realmente ninguém o quis, já a minha coleção de discos de vinil, o meu cunhado que sempre dá um jeitinho de arrumar um troco, aposto que iria se prontificar a ficar com ela, mas não pra ele: É que tem uma feirinha de quinquilharias aos sábados na pracinha perto da casa dele e cada um dos meus Roberto Carlos e dos meus Ray Connifs iriam morar em uma casa diferente. Fui vendo que uns três ou quatro pares de óculos escuros foram se dirigindo quase que espontaneamente para alguns bolsos, sempre acompanhados de um olharzinho discreto para o lado. Provavelmente as bugigangas da cozinha não sirvam para nada, pelo menos eu não vejo nada de interessante em um monte de panelas velhas, garfos meio tortos e facas meio cegas, enfim... Ah, sim! Minha coleção de copos de vinho, de uísque, tudo de cristal, se bem que nem sei se alguém lá de casa sabe dar valor a estes detalhes, Se fosse uma coleção de copos de refrigerante, provavelmente seria mais disputada.
        E assim prossegue o vaivém, o passar de mão em mão, o correr de olhos daqui pra lá e de lá pra cá, enquanto alguém fala pros sobrinhos menores, irem até o supermercado em frente para pegarem umas caixas de papelão porque todo mundo ainda tem muito que fazer ainda mais agora na última semana da novela das nove. Com oito notas de cinquentinha que descobriram em uma gaveta, resolveram doar para a igreja na missa de domingo e realmente o fizeram. Doaram seis notas e aproveitaram duas pra pedir uma pizza com umas cervejinhas.
        Gente, por favor, pode levar tudo, tudinho mesmo, até porque até o gato já se mandou faz tempo, mas, por favor, não esqueça de que amanhã as seis da tarde é minha missa de sétimo dia, tá!?


Sem data

Heresias


        Tem coisas com as quais eu não consigo me conformar: Tirar o champignon do strogonoff, substituir alcaparras por azeitonas verdes sem caroço, comer bife bem-passado, então, eu me recuso solenemente a comentar (tchê!)... E ainda tem aquela estória do patê na torrada. Só quem já se deliciou com um bom patê francês saboreado preferencialmente na sua terra natal, com uma “champanhota”, de leve, sabe que não se passa patê em torrada. Entope-se a torrada com patê da mesma forma que se entope o ganso - ou o pato - com comida até que seu fígado se transforme num verdadeiro “foie gras” o que faz com que seu sabor fique inigualável, isto, sem contar, as pessoas que misturam guaraná ao uísque, destruindo em um gesto de requinte de anos e anos de dedicação e paciência pelo frei escocês conhecido apenas pelo nome de John. Tudo bem que a lei seca americana obrigou os beberrões de plantão da década de 20 do século passado a verdadeiras heresias alcóolicas, como também nos trouxeram o “hi-fi”, e por aí vão se os absurdos etílicos. Para outro campo de análise, dia desses vi uma Ferrari amarela aqui em São Paulo. Não que isto seja algo tão raro assim, mas fiquei pensando comigo o que faz uma pessoa comprar um carro que acelera aos 100 km/h em 3 segundos, rompe a barreira dos 200 km/h em 7 segundos e atinge a velocidade máxima de 370 km/h, numa cidade, ou num estado, ou num país onde a velocidade máxima permitida é igual ou inferior a 120km/h. Perto disso, cortar o macarrão com faca é fichinha. (Que me perdoe a italianada de plantão.) Outra coisa que me provoca uma mistura de náusea com repúdio mesmo é aquele purê de batata dentro do hot dog. Só de imaginar um americano e um francês dividindo a mesma receita, já é de arrepiar, compreende? Sinceramente quem inventou aquilo tem o próprio purê de batata no lugar do cérebro. O pior é que o pessoal acostuma a comer aquele negócio “meio E.T” e termina por achar que é gostoso. Parece torcedor fanático para quem o time sempre joga bem e o juiz sempre é ladrão. Ainda se fosse um combinado de Cointreau, vodca, suco de tangerina e soda limonada, ainda desceria melhor. Ops! Acho que acabo de inventar um long drink, digno de um barman profissional, graças à minha experiência em coquetelaria internacional!    
2016


Domingou

”Domingou”.
Este pretérito eu ouvi numa música do Torquato Neto com Gilberto Gil. A sonoridade é perfeita quando ouvida, a palavra é linda quando lida.

Hoje é sábado, que bom.
Amanhã domingará!
* * *
Perguntei a uma menina onde ela morava. Ela respondeu muito bem decoradamente:
- Rua Érico Veríssimo número vinte e seis, parque são Jorge.
-Muito bem! E você sabe quem foi Érico Veríssimo?
- Sei. Foi o nome da minha rua.
                                        * * *
...Aí o mineirin’ entrou no boteco e pediu uma coxinha. Quando o balconista a trouxe, o mineirin’ educadamente perguntou se poderia trocar a coxinha por um “refri”.
- Pode sim senhor. E o balconista devolveu a coxinha à estufa, pegou um refri e deu para o mineirin’ que tomou tudinho e em seguida saiu. O balconista vendo o mineirin’ sair sem pagar, gritou de dentro do balcão:
- Moço o senhor não pagou o refri!
- Ué, mas eu troquei pela coxinha.
- Mas o senhor também não pagou pela coxinha!
- Coxinha? Ué, mas eu não comi!
                                   * * *
“Saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou”.




Sinopse


        Nicole Andéol é uma psicóloga de 25 anos que foi criada por sua mãe Anne e sua tia postiça Eléonore desde que seu pai saiu de casa sem maiores explicações. Nicole sempre nutriu dois sentimentos por seu pai. Um amor profundo, porém, recalcado e um ódio freado por não conseguir perdoá-lo ao tê-las abandonado, ela e sua mãe. Com o tempo, uma família sóbria e sólida formou-se entre as três mulheres, até a tarde quando o telefonema de um hospital há duzentos e oitenta quilômetros da cidade onde as três moram avisa que o Sr. Charles Renée Andéol, pai de Nicole, está em seus últimos momentos de vida e que ele pedira para ver a filha. Um desconforto paira entre Anne e Eléonore e um inconformismo invade Nicole, já que ela nunca admitiu seu pai ter sumido de casa sem nenhuma justificativa aparente. Após decidirem sobre o último pedido de Renée, a mãe de Nicole decide contar-lhe seu maior segredo: Com um casamento tido como perfeito Renée descobre por acaso que sua esposa possui um “affair” com Eléonore, sua amiga desde a école primaire. Renée fica completamente perdido, porém, como homem de extremo poder de compreensão, julga que o amor entre as duas deve ser preservado e também percebe que ele tem o dever de fazer sua esposa feliz e que duas mulheres podem perfeitamente cuidar da sua filha, ou seja, Renée tem uma atitude de incomensurável amor em relação a Anne que sempre teve Renée como o melhor ser humano que ela já conhecera. Durante a viagem ao hospital Anne revela toda a verdade à filha que em estado de quase choque, muda completamente seu pensamento em relação ao pai compreendendo enfim a grandeza do ato que ele cometera, oferecendo para sua mãe e tia postiça a liberdade de elas amarem o amor que durante tantos anos permaneceu sufocado. Chegando ao hospital recebem a notícia de que Renée acabara de falecer.
        A viagem de volta foi silenciosíssima, parecendo que cada uma fazia seu mea-culpa no mesmo tempo que não conseguiam entreolhar-se.
                                       * * *
        Em abril de dois mil e quatro, o advogado Emmanuel Ludot é procurado por Nicole Renée que se interessou por seus artigos escritos em diversas revistas onde defende fervorosamente o direito de pessoas do mesmo sexo poderem se casar. Ela lhe conta a estória de sua mãe e apesar de ela mesma já estar casada com o também advogado Jean Lambert, e ter um casal de filhos, relata que quer atuar nesta causa em defesa de sua mãe e de sua companheira. Começa então a participar de manifestações de rua, distribuir panfletos, acompanhar todas as notícias do Conselho de Estado Frances e pressionar senadores liderando vários grupos que crescem e se multiplicam a cada dia por toda a França.
          « Aimons-nous, Pas tuer notre amour, Liberté d'aimer « são frases que começam a serem lidas e ouvidas com cada vez mais frequencia e em mais lugares e cantos da França.
        Em dezessete de maio de dois mil e treze é finamente promulgada a lei que torna legítimo o casamento entre pessoas do mesmo sexo na França. Isto faz com que Nicolle Renée finalmente consiga perdoar seu pai.


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sábado, 27 de agosto de 2016

Envelhecer

      Tem gente que envelhece e fica com cara de velho, mas tem gente que envelhece e fica com cara de anjo. Cara de anjo, jeito de anjo, voz de anjo, mãos de anjo, sorriso de anjo, olhos de anjo, olhar de anjo, andar de anjo... Foi assim que vi e parei e fiquei vendo e olhando e vendo uma foto do senhor Gilberto Passos Gil Moreira, no dia vinte e sete de agosto de dois mil e dezesseis.
***
      Envelhecer sem pressa, sem nostalgia, sem sequer perceber-se a si mesmo que está envelhecendo, que coisa mais “Di Linda”! Tem gente assim, “Gilberteando” a vida - como ele mesmo escreveria caso este texto fora por ele escrito - e desta forma vai passando daqui pra lá, de lá pra cá, do antes para o depois - preferencialmente de sandálias -  com um violão à mão, sem muitos brilhos na roupa, mas com uma auréola que reluz tanto o quanto uma auréola é capaz de ser-se, até que um dia não só a luz acima da sua cabeça, mas a pessoa toda brilha e vai ser luz como só a luz a sabe ser. E se transforma em um anjo inteiro, não apenas um arremedo não alado, aí a gente fica pensando, só pensando num certo nada, num certo tudo, ou não... Sem pra sempre sofrer.
* * *

      Na última cena do final do final, enfim, tudo bem. A gente tropeça na realidade e, sem cair, é convencido pelo “ser ou não ser, eis a questão” de que vai se encontrar de novo pra tocar violão e cantar músicas que só os anjos são capazes de cantar juntos. E a vida segue com anjos a menos aqui na terra e anjos a mais no universo do jeito que só o universo pode ser: Simples como a eterna caminhadura do Vendedor de Caranguejos!

sábado, 6 de agosto de 2016

Até quando

Até quando o Brasil será pobre? Não pobre de dinheiro, mas pobre de valores sejam eles éticos, sejam eles morais.
Não quero que o Brasil se transforme numa Noruega ou numa Suíça, isso não.
      Acho até que esses sejam países chatos de se viver. São bons para se passar férias, nada mais. Posso até achar chique viajar à Europa, mas é apenas chique, lá não tem carnaval. Acho bom viajar ao Japão e sentir a seriedade deles nas ruas ou em qualquer outro lugar que seja. Lógico que é bom estar no primeiro mundo, mas antes, ainda prefiro o meu mundo. Aquele que fala a minha língua, minha pátria até porque nada se compara ao calor das nossas praias, ainda que eu tenha que aprender a falar palavras sem significado concreto como Ipanema. Refiro-me também ao calor humano. Às mulatas de sangue borbulhante, aos mulatos swingueiros, aos gingados, aos sons baianos, às batucadas irreverentes, da pedra do sal, no mundo não há praias bonitas como as de santa Catarina, nem mulheres também, perdoem-me as cariocas. Fernando de Noronha não é para ser falado nem escrito, é para ser reverenciado como expressão máxima da perfeição de Deus. Carne de sol com jerimum como as do nordeste, então, nem pensar. Qual estrangeiro consegue ter a noção do que seja o pantanal, o estado do Amazonas? Nenhum. Para eles só em ficção existem jiboias e lagartos e sucuris e aranhas e macacos e araras e águas iguais às nossas.
      Vai à China pra ver se você encontra uma praia, uma só, como a mais simples praia daqui. Lá toda praia tem uma crosta de poluição que você nem imagina, só que não aparece na televisão de jeito algum. Os Japoneses desembolsariam quantias generosíssimas para ter uma mangueira no seu quintal, isto caso eles tivessem um quintal para plantar uma mangueira. Aqui, mangas, pitangas, peras, não só caem do pé, nas calçadas, mas também dão frutos como sobrenomes. É tão natural ser brasileiro que até parece difícil ser tão natural assim. Brasileiro.
      Enquanto temos tudo isso de bom, bonito e barato aqui no Brasil, me parece que as coisas acabam sempre se resumindo numa festa no meu apê na qual vai rolar bundalelê! Que pena!


06/08/16

Às vezes

Às vezes é melhor não escrever nada. Ir dormir
Outras vezes não se consegue dormir, melhor escrever
Ver o céu ir-se alaranjando, um bem-te-vi conhecido
Começando a balbuciar sua súplica

Às vezes é desnecessário escrever
Só apagar a luz e ficar pensando no que se estaria escrevendo caso fosse aquele o seu último texto

Às vezes é melhor pintar um quadro
Ainda que não tenha vocação para pintá-lo
Mas para quem entende
Um risco é muito mais do que um rabisco
Pode-se não escrever nada
Deixar apenas uma reticência na página
E permitir que alguém descubra
Ou sinta o que você está sentindo

Às vezes é mais prudente levar o guarda-chuva mesmo num dia de sol só por que o calo do seu pé está doendo
Outras vezes melhor ler um livro a sair de casa
Vai que chove...

Ainda bem que por não se saber de nada sempre há reticências para se terminar um texto, ou não...


Novembro/2015