sábado, 27 de agosto de 2016

Envelhecer

      Tem gente que envelhece e fica com cara de velho, mas tem gente que envelhece e fica com cara de anjo. Cara de anjo, jeito de anjo, voz de anjo, mãos de anjo, sorriso de anjo, olhos de anjo, olhar de anjo, andar de anjo... Foi assim que vi e parei e fiquei vendo e olhando e vendo uma foto do senhor Gilberto Passos Gil Moreira, no dia vinte e sete de agosto de dois mil e dezesseis.
***
      Envelhecer sem pressa, sem nostalgia, sem sequer perceber-se a si mesmo que está envelhecendo, que coisa mais “Di Linda”! Tem gente assim, “Gilberteando” a vida - como ele mesmo escreveria caso este texto fora por ele escrito - e desta forma vai passando daqui pra lá, de lá pra cá, do antes para o depois - preferencialmente de sandálias -  com um violão à mão, sem muitos brilhos na roupa, mas com uma auréola que reluz tanto o quanto uma auréola é capaz de ser-se, até que um dia não só a luz acima da sua cabeça, mas a pessoa toda brilha e vai ser luz como só a luz a sabe ser. E se transforma em um anjo inteiro, não apenas um arremedo não alado, aí a gente fica pensando, só pensando num certo nada, num certo tudo, ou não... Sem pra sempre sofrer.
* * *

      Na última cena do final do final, enfim, tudo bem. A gente tropeça na realidade e, sem cair, é convencido pelo “ser ou não ser, eis a questão” de que vai se encontrar de novo pra tocar violão e cantar músicas que só os anjos são capazes de cantar juntos. E a vida segue com anjos a menos aqui na terra e anjos a mais no universo do jeito que só o universo pode ser: Simples como a eterna caminhadura do Vendedor de Caranguejos!

sábado, 6 de agosto de 2016

Até quando

Até quando o Brasil será pobre? Não pobre de dinheiro, mas pobre de valores sejam eles éticos, sejam eles morais.
Não quero que o Brasil se transforme numa Noruega ou numa Suíça, isso não.
      Acho até que esses sejam países chatos de se viver. São bons para se passar férias, nada mais. Posso até achar chique viajar à Europa, mas é apenas chique, lá não tem carnaval. Acho bom viajar ao Japão e sentir a seriedade deles nas ruas ou em qualquer outro lugar que seja. Lógico que é bom estar no primeiro mundo, mas antes, ainda prefiro o meu mundo. Aquele que fala a minha língua, minha pátria até porque nada se compara ao calor das nossas praias, ainda que eu tenha que aprender a falar palavras sem significado concreto como Ipanema. Refiro-me também ao calor humano. Às mulatas de sangue borbulhante, aos mulatos swingueiros, aos gingados, aos sons baianos, às batucadas irreverentes, da pedra do sal, no mundo não há praias bonitas como as de santa Catarina, nem mulheres também, perdoem-me as cariocas. Fernando de Noronha não é para ser falado nem escrito, é para ser reverenciado como expressão máxima da perfeição de Deus. Carne de sol com jerimum como as do nordeste, então, nem pensar. Qual estrangeiro consegue ter a noção do que seja o pantanal, o estado do Amazonas? Nenhum. Para eles só em ficção existem jiboias e lagartos e sucuris e aranhas e macacos e araras e águas iguais às nossas.
      Vai à China pra ver se você encontra uma praia, uma só, como a mais simples praia daqui. Lá toda praia tem uma crosta de poluição que você nem imagina, só que não aparece na televisão de jeito algum. Os Japoneses desembolsariam quantias generosíssimas para ter uma mangueira no seu quintal, isto caso eles tivessem um quintal para plantar uma mangueira. Aqui, mangas, pitangas, peras, não só caem do pé, nas calçadas, mas também dão frutos como sobrenomes. É tão natural ser brasileiro que até parece difícil ser tão natural assim. Brasileiro.
      Enquanto temos tudo isso de bom, bonito e barato aqui no Brasil, me parece que as coisas acabam sempre se resumindo numa festa no meu apê na qual vai rolar bundalelê! Que pena!


06/08/16

Às vezes

Às vezes é melhor não escrever nada. Ir dormir
Outras vezes não se consegue dormir, melhor escrever
Ver o céu ir-se alaranjando, um bem-te-vi conhecido
Começando a balbuciar sua súplica

Às vezes é desnecessário escrever
Só apagar a luz e ficar pensando no que se estaria escrevendo caso fosse aquele o seu último texto

Às vezes é melhor pintar um quadro
Ainda que não tenha vocação para pintá-lo
Mas para quem entende
Um risco é muito mais do que um rabisco
Pode-se não escrever nada
Deixar apenas uma reticência na página
E permitir que alguém descubra
Ou sinta o que você está sentindo

Às vezes é mais prudente levar o guarda-chuva mesmo num dia de sol só por que o calo do seu pé está doendo
Outras vezes melhor ler um livro a sair de casa
Vai que chove...

Ainda bem que por não se saber de nada sempre há reticências para se terminar um texto, ou não...


Novembro/2015

Às vezes sonho

Às vezes sonho que estou a escrever
Às vezes sonho que sou escritor
Às vezes escrevo que sonho que escrevo
Às vezes meus sonhos se tornam palavras
Às vezes as palavras se tornam textos.

Não sei se estou acordado agora escrevendo,
Ou se estou sonhando que estou escrevendo
De qualquer forma me sinto dedilhando teclas
Esteja eu acordado, esteja eu agora dormindo
Não importa, tudo vale a pena seja como for.

***
E você, onde está agora?

Dentro de um avião para conhecer lugares nunca conhecidos?
Parado no trânsito e aproveitando para ler ou reler coisas?
Lendo meus textos pela primeira vez?
Rindo, divertindo-se com bobagens
Que pessoas bobas escrevem?

Calma! Meus textos nunca duram mais do que um ou dois minutos para serem lidos. É o tempo de o farol abrir. (Sinal, aqui no Rio de Janeiro). Ler talvez nem incorra em multa, mas caso contrário, sempre cabe recurso.
Portanto ,divirta-se!

2016

Achei

        Achei que era sua voz que se calara quando ela foi embora. Ledo engano. Ela saiu não com apenas ela. Sutilmente me levou embora. Levou consigo duas pessoas. Ela não foi sozinha. Foi com meu coração, e além disso levou duas coisas que me eram preciosas. As duas mãos com as quais eu tocava piano. Nunca mais toquei piano porque amputado não se toca. Também sem coração não se toca piano.  Entre nós não foi necessário levantar a voz um ao outro, não foi necessária a despedida. Foi necessário dilacerarmos nossos corações cada um à sua maneira. Fomos ambos amputados, e assim vivemos; eu sem coração e sem mãos para tocar piano.  Ela não precisa me contar a sua parte. Não sei quando a cicatriz fechará, mas ainda não estou curado. Não consigo tocar nenhuma música inteira. Paro sempre pela metade, ou até antes da metade. Tentei tocar piano hoje, não consegui, novamente não fui capaz. Sei que é culpa minha não conseguir tocar piano. Meus dedos não correspondem mais ao meu coração. As mãos que não tenho mais não me obedecem porque deixaram de existir. Acho que estão dentro das malas que ela levou consigo. O piano sabe disso. Parece que ele olha para mim e me diz que não faz mais sentido tocar. Já é quase meia noite. Vou dormir logo, mas não sem antes escrever para só depois deixar meu coração dormir também.
        Quem sabe um dia, uma tarde, uma noite qualquer eu passando distraidamente por um piano ele olhe para mim e me diga: “Venha aqui, sente-se à minha frente que estou pronto para você viver novamente”.
        Espero que ela não esqueça que minhas mãos ainda estão dentro das malas que foram embora e prontas para tocar novamente porque é para ela que voltarei a tocar piano. Não pense que isso é ruim. Isso é apenas amor.
        - Tomara -.


O Trilho

É o amor, algo que nos tira de onde estamos e nos transporta pra outro lugar que nunca sabemos onde é. Ainda que já tenhamos feito, ou ainda que venhamos a fazer outras viagens, nunca seremos capazes de saber qual será a nova estação desse trem. Faz parte de um destino que só ele escolhe e nos coloca na estação à espera do lugar que está reservado para nós. Sempre saímos com malas vazias, sem bagagem, sem saber de nada. Sabemos que estamos embarcando, indo sem rumo, e por mais que haja medo, há esperança e coragem de chegarmos ao destino. E assim, ele, o amor, nos empresta sua convicção de que tudo irá dá certo e nos mostra apenas os degraus da escada de entrada para o trem. Entramos, somos sempre surpreendidos por não sabermos de nada do que vai acontecer. Entregamo-nos à viagem, sonhamos e supomos que ao chegar sempre seremos bem recebidos. Assim seguimos cegados pelo que o amor nos leva a crer que seja a perfeição do encontro ao fim da viagem, mas antes da viagem, sem que percebamos sempre já há alguém à nossa espera. Alguém que nos dará a mão para que viajemos juntos. O percurso pode ser longo, dias, meses, anos, mas depois que se encontra a pessoa que foi escolhida para viajar com a gente, então tudo fica mais fácil. O trem vai, anda, para, segue novamente. Há de se apreciar a paisagem. Os dias ficam mais bonitos, os meses ficam menos longos e os anos não pesam na bagagem. Depois que por acaso encontramos o parceiro da viagem, sabemos que iremos até o fim juntos, rindo, almoçando, jantando, dormindo, acordando, até sofrendo, mas, tudo sempre junto. As mãos não se desgrudam. Os corpos não se desencostam nem as almas se separam jamais.
O trem balança, a gente se segura, o trem faz curvas e a gente se olha, o trem desce, sobe a gente se abraça. Não me esqueço de quando subi naquele trem, sem destino. Só havia três degraus para subir e eu subi e segui até o fundo do trem, não preocupado com a viagem nem com o destino. Quem me levaria nem era o trem, nem o caminho do trem. Ela. Era quem me levaria a partir dos tais três degraus do trem. Ali, de olhos fechados eu a via e a sentia de mãos dadas, de corpos juntos, e quando o trem balançava, eu me abraçava a ela. E foi assim que se passou a viagem na qual eu não vi as horas, os dias, os meses, e os anos se passaram até que meus cabelos ficassem mais brancos... Mas que viagem bonita!

* * *

Certo dia, uma hora incerta, havia um sol tímido e o céu era cinza na estação. O trem tinha que partir. Partir de volta e de novo três degraus pra eu subir. Meus pés eram menos firmes, meu rosto mais enrugado, em minhas mãos eu levava de volta os calos do esforço da ida, mas sei que no meu semblante uma sensação do dever cumprido insistia em permanecer. Lembro-me de ter ouvido o som de alguém tocando uma música ao longe, o que me fez sorrir e olhar para trás sem ter visto ninguém, afinal a música não importava, eu não a reconhecia. O trem era azul, como talvez o tivesse sido quando vim, sem que nunca lho tivesse notado a cor antes. Os degraus estavam ali à minha espera. O cheiro era de infância, mas nem por isto eu viria a reconhecer alguém lá dentro. Subi os três degraus com mais esforço e mais calma do que da vez anterior. O trem estava vazio apenas com dois cheiros misturados. Um de passado e outro que eu não fazia idéia do que era, acho que era cheiro de futuro.      
Viajei não sei por quanto tempo, talvez por décadas sentindo, sozinho, os balanços, as subidas, as descidas, sentindo de olhos abertos cada curva, cada árvore sem saber se elas já estavam lá antes. Teria quanto tempo durado a viagem? Teria eu adormecido supondo estar seguro pela mão de alguém, ou sendo aquecido por algum abraço que na verdade não existiu jamais?

* * *

Três degraus pela terceira vez. O lugar e meu coração estavam frios. Um cigarro foi minha companhia no meu primeiro respirar depois dos três degraus descidos no mesmo local onde eu os subira fazia trinta anos e onde eu apenas rezara sem fumar. Esfreguei minhas mãos uma na outra, não havia outras mãos para eu apertar, esquentei-me abraçando a mim mesmo, do outro lado uma rua e tudo de novo... Agora era outono. Eu sabia de outro inverno vindo, mas o cão que dormia encolhido na beira da calçada e que lhe dei o nome de “trilho” (já que ele não possuía dono e vivia, suponho, trilhando o seu caminho sozinho) me olhou e pareceu que piscou com o olho esquerdo para mim garantindo que ainda estaria ali na primavera. Os passarinhos estavam tímidos, mas afinal, a vida prevaleceria mesmo com a friagem que fazia o vento já parecia incidir na pele, ainda que, com a delicadeza da navalha que nos corta sutilmente e sem dor. O vendedor de pipocas esperava a todos os que desciam do trem, no caso apenas eu, mas ele estava animado e com um bafo de rum, porque o time dele tinha sido campeão sei lá do quê...
Assim foi a minha segunda ida.

* * *

Instalei-me num lugar no qual coloquei a chave na porta e vi apenas que era quase vazio, repousava ali apenas uma cama, um travesseiro, um chuveiro que não funcionava direito e um cheiro de mofo que não esqueço. O lugar não me remetia a nada, aliás, me supunha imaginar uma prisão a qual eu inconscientemente escolhera. Eu e o lugar éramos sem passado. Eu e o tal lugar e o tal cachorro magrelo, e o tal passado e o tal futuro começávamos tudo agora. Peguei outro cigarro, o último do maço e fumei sem sentir nenhum prazer. A senhora, velha e gorda, dona da pensão perguntou se eu queria alguma coisa e eu respondi: “Viver de novo”, ao que ela fez cara e sorriso de Frida Kahlo e sem mais palavra foi embora.

* * *

Acordei com um barulho estranho, em seguida outro. Era o sino da igreja que badalava um som monótono. Havia tempo que eu não ouvia algo tão desnecessário. Fiquei tentando decifrar sem sucesso qual música o sino tocava. Senti paz.  Em seguida um monte de passarinhos tinha resolvido gorjear justamente próximo à minha janela.        Eu já não morava mais naquele lugar da velha gorda, era outro, perto de onde eu morava quando eu era criança. Aos poucos fui me lembrando da música do sino da igreja onde eu recebera a minha primeira comunhão e relembrei os cantos dos sabiás e dos bem-te-vis. Eu estava de volta à minha casa, ao meu passado. Tomei o banho mais demorado do qual me lembro, fiz a barba, saí cumprimentando as pessoas que eu não conhecia, passei pela padaria e comprei coisas que eu não precisava, sentei-me em frente a um lugar qualquer onde havia sol suficiente e pedi uma cerveja e um novo maço de cigarros. Quando dei por mim havia o mesmo cachorro magrelo ao meu lado, quieto, que sem latir, me deu uma piscada com olho esquerdo. Então eu soube que já era primavera. Depois eu percebi que entre a minha casa e a rua havia só três degraus que eu, a partir daquele dia, iria subir e descer sempre e sempre.

* * *
       
 O Trilho - última cena -

“Não sinto falta dela, mas sinto falta de nós dois”, afinal, foi uma bela viagem juntos e que o tempo não irá ter a menor importância em quando tenhamos chegado ao nosso destino final, mas será para sempre inesquecível. Sempre haverá uma primavera, foi o que me garantiram os passarinhos e aquele tal cão magrelo e vira-latas que persistente dorme encolhido naquela estação e que eu acho que quando me vê, pisca sorrateiramente o olho esquerdo para mim quando eu me sento perto dele e assim ficamos ambos olhando um novo trem chegar. Nós nos tornamos cúmplices de uma espera refletida nos nossos olhos. Talvez ele também espere que outro alguém com apenas uma maleta na mão um dia desça aqueles três degraus do trem e que mesmo com frio olhe para ambos os trilhos, o do trem, e o Trilho do olho capenga e saiba que sempre haverá tantas e mais vindas e partidas.
 - O Trilho pareceu confirmar aquilo que eu pensava e novamente com o suposto piscar do seu olho esquerdo -.
Todo dia chega um trem com pessoas que trazem nas suas sacolas, muitos sonhos. Nem sempre elas percebem os degraus, sequer os trilhos do trem que as trouxe. Umas olham para o céu e parece que pedem coisas a Deus. Outras pedem para que se esqueçam do seu próprio passado e ainda outras pedem um futuro. Eu as observo e dou apenas uma piscadela com meu olho esquerdo para o Trilho enquanto divido com ele um sanduíche de mortadela que comprara na padaria.

Nova Friburgo
04/08/16


Setembrar

Em setembro vai completar um ano
Que foi setembro no ano passado
Em setembro vai ser setembro de novo
Em setembro vai ser primavera novamente
Em setembro vão nascer tantas flores
Em setembro vão morrer tantos amigos
Como sempre foi e voltará a ser.
Som de setembro é bom
Adoro pássaros quando cantam livres
Setembros têm cheiros de novidades
Setembros nos preparam para tanta coisa
Que só setembros sabem fazer.
Setembros fazem a gente acordar
Com mais vontade de respirar
Até que trinta dias depois ele some
Mas eu não importo
Tenho um ano inteiro para sonhar
Com meu novo setembro.
Daqui um ano será setembro de novo
Eu posso reler este setembro de hoje
Abrir a janela e ver novos pássaros
Filhos daqueles outros do ano passado
Inalar os cheiros de novas flores
Pólen daquelas outras do ano passado
Daqui a um ano será setembro
E eu setembrarei tudo novamente.
2016




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Bullying

Que pena esta perda de identidade que as pessoas têm sofrido hoje. Atualmente o gordo não é mais gordo, o careca não é mais careca o baixinho não é baixinho e negro é afro. Ninguém sofre de ser isso ou aquilo. Sofre de mau-hálito, sofre de bullying. Por que será que os americanos tinham que se intrometer até nisso? Antigamente se o cara era um merda ele era mesmo um merda, agora ele é uma vítima - uma vítima de merda, é claro -. “Tá gordinho, heim!?” – pronto! Crime. Se for mulher então dá direito a processo criminal com agravante na lei Maria da Penha. Antigamente criança que não já bem na escola era repreendida pelos pais, e hoje? Tirou nota baixa? Cai de pau no professor, alega que os amiguinhos estão chamando seu filho de burro e que isso é bullying e daí vem o resto: O menino esfaqueia o outro, mas por quê? Porque sofreu bullying. Que pena! Agora ninguém pode sacanear alguém que, pronto: É bullying. Se o seu time for rebaixado para a segunda divisão não se preocupe, ninguém vai poder “tirar sarro de você”. É bullying também.
Agora o Rubinho Barrichello descobriu que também ta sofrendo disso. Chamaram-no de velho e careca, imagina! Pior do que isso só uma vez que ouvi um sujeito gritando pro outro: “Preto, filho da puta” ao que o agora, afro-descendente, prontamente reagiu. “Preto, não!
Segundo Barrichello ele ainda tem muito a oferecer ao automobilismo. Claro que concordo. Além do que temos que admitir que ele sempre correu “atrás” de seus ideais.
Agora não se tem direito à revanche do tipo: Sou preto com muito orgulho e por aí vai... e preto com muita honra então é coisa do passado. Somos todos irmãos. Agora somos todos brancos, uns mais claros, outros mais escuros, claro!
Eu nunca pensei que teria que aprender a usar tantos verbos novos como agora. Hoje eu deleto, printo, twito, torpedo e ainda por cima estou há quase meia hora tentando em vão conjugar o verbo Bullyinisar. Ainda se o verbo fosse Bullynar até dava pra tentar. Tenta aí, depois me responde se conseguiu:
Eu bullyiniso, tu bullyinisas, ele bullynisa... E pensar que o meu apelido de infência era "perereca"porque magrelo que eu era, pulava muito alto e muito longe. Não quero nem pensar nisso nos dias de hoje.
Ah, se me ridicularizarem por este texto, já sabem, né!? É bullying! E vou achar que é só uma tremenda sacanagem, mas em compensação isso seria discriminação, o que é crime. Pode uma coisa dessas?

2016

  

No ônibus

- Então ele teve mesmo coragem?
- É o que andam dizendo.
- Ele parecia ser tão bom marido.
- Sei lá, nunca se sabe.
- Também... Do jeito que ele é...
- Me falaram que ele tinha parado de beber.
- Eu acho que foi descuido dele.
- É, ele bobeou mesmo.
- Mas colocar veneno na comida dele... Sei lá.
- Ué, não foi facada?
- Ele se aproveitou da distração dele.
- Pois é homem traído é fogo.
- Mas eles não eram amigos?
- Eram até o dia em que ele descobriu.
- Que azar o dele.
- Eu acho até que ele teve suas razões.
- Pensando bem, ele mereceu.
- Ele não tinha nem trinta anos, tinha?
- A mãe dele falou o que?
- Que ele tem que pagar pelo que fez.
- Se eu fosse ele tinha feito a mesma coisa.
- A filhinha dele vai ficar com quem?
- Ouvi dizer que a irmã dele negou tudo.
- Ele era policial não era?
- Eu já vi ele também andar armado.
- Ele não reagiu?
- Ninguém sabe se foi arsênico ou cianeto.
- Então não foi facada mesmo?
- Tanto faz. Afinal ele morreu, não morreu?
- Ele teve muito sangue frio.
- Ele estava no lugar errado na hora errada.
-Mas a mulher dele não sabia que ele tinha outra?
- Que nada ele parecia um santo dentro de casa.
- Vou descer no próximo ponto.
- Diz que eu estou rezando por ele.
- Vou inclui-lo nas minhas orações
Vamos marcar um churrasco.
Sexta é feriado.
- Combinado.
-Tchau.
- Tchau.

2016

terça-feira, 2 de agosto de 2016

De volta ao ninho

De tanta vida, de tanta ida
Voltei ao meu mesmo lugar
De jogar bola, de infância
De tanta saudade
De tanto disputar par ou ímpar
Jogo de botão  então...
De aprendizado, quando
Eu perguntava para minha mãe
Como ela sabia se ia chover
E ele apenas dizia:
- Olha pro céu. Se estiver escuro vai chover!
Eu ia até longe do que era longe para mim
Eu ia de mão dada, não olhando para o chão
Apenas confiando na mão da minha mãe
E achando que agora eu sabia quando iria chover.
Bastava olhar para o céu.
Era fácil saber quando eu e minha mãe iríamos sair.
Ela não tinha muitos vestidos – nunca usou calça comprida – Uns vestidos eram para ficar em casa, outros, para sair.
Eu sabia sobre o dia de acordo com o vestido da minha mãe.
Garanto que isso é verdade.
Dona Enéia era assim, de uma simplicidade sem palavras, mas repleta de filosofia.
Agora mais de cinquenta anos depois, quando eu quero saber se vai chover, olho para o céu e vejo mais a minha mãe do que vejo o céu. Nem percebo que sorrio ao fingir perguntar: Mãe, será que vai chover?
* * *
Tantas memórias, quando de volta ao ninho
Voltei sozinho com apenas uma mala
Mala cheia de saudade e de  vontade de vir pra ficar
Mala que quando abro encontro recordações, fatos e fotos de gente que é tão jovem nas imagens
Mas que envelhecem  quando eu as vejo.
Nas fotos as pessoas são menos tristes, talvez.

Voando de volta ao ninho, eu quase inteiro
Ele como sempre foi no passado
Eu quase inteiramente feliz
Eu dentro de minha própria mala
Mala repleta de minhas lembranças
Saudades, várias... E um violão
Que vai fora da mala.
Violões e asas não cabem em malas
Elas não se destinam a isto
Asas e violões são para voar pra outro lugar.
Não se deve jogar malas fora.
Nunca se sabe quando será a próxima viagem
Pode ser amanhã, pode ser ainda hoje,
Pode-se ter que preparar repentinamente
Uma mala para me jogar em outro vôo
Com o mesmo violão,
Para outro ninho.

São 03h.25min

2016

Da minha janela

      Da janela do oitavo andar, no living do meu antigo apartamento, eu via o aeroporto e a larga e longa avenida que terminava nunca eu sabia onde. Agora da janela da minha saleta, debruçado no estreito parapeito eu vejo pipas conduzidas por meninos que não sei nunca onde estão. Não os vejo e a rua termina alguns metros antes do alcance da minha visão e no céu não sobem nem descem aviões.
      Da outra janela – a do meu quarto – ouço o procotó, procotó de cascos de cavalos às vezes lento às vezes mais rápidos que se transformam em música cadenciada aos meus ouvidos e eu imagino-os brancos, marrons, ou de outra cor qualquer que eu invento sem vê-los, apenas por imaginar-lhes grandes ou pequenos com crianças em cima deles, coisa que realmente já vi e que guardei na memória para poder imaginar depois.
      Inspiro e beijo o meu próprio ar. Expiro, olho para o céu e lembro o quanto ele sempre foi azul. Minhas gravatas, meus ternos tudo está guardado em um guarda-roupa que nem seu mais para que servem as gravatas nem os ternos nem o guarda-roupa, já que um punhadinho de t-shirts dá conta da necessidade dos meus ires e vires diariamente ao centro da cidade ou alguma quermesse.
      Inspiro, expiro, saio de sandálias e camiseta, o mercado é logo ali na outra esquina. Uso dinheiro mesmo nem tenho mais cartão de crédito, aliás, nem preciso de crédito. Meu dinheiro me basta para comprar o que eu preciso. Meus netos vão a pé pra minha casa brincando e se divertindo com os cachorros conhecidos e não precisam sequer atravessar a rua para chegar à casa do vô.
      A porta da minha casa não possui nada além de um trinco de ferro que nem sempre me lembro de trancar durante a noite. Tenho um fogão a gás que quase não uso e outro a lenha que passa o dia inteiro esquentando a cozinha no inverno. O céu da cidade onde eu moro é possível que as estrelas sejam infinitamente contadas com a ponta de um dedo e a lua é tão branca que quando cheia parece ser um sol genérico de tanto que ilumina as ruas. A única poluição de que tenho conhecimento aqui é a sonora do velho que passa com a carroça vendendo verduras frescas, gritando muito alto e tocando uma buzina manual e estridente: “Olha a alface, olha o tomate, olha a beterraba, olha a batata” e por aí vai, num repertório que nunca é exatamente o mesmo.
      Na minha rua - como não poderia deixar de ser - há aquelas fofoqueiras antigas, beatas, que não perdem a missa por nada desse mundo e que são conhecidas menos pelas suas “beatices” do que pelas suas “fofoquices”.
      Aqui todos os cachorros de rua possuem nomes. Flamenguista, vascaíno, pó de arroz, americano, botafoguense... Não tem corinthiano nem palmeirense sequer são paulino, mas tem friburguense. Dia de jogo cada torcida alimenta um, de acordo com seus nomes e a camisa de quem os alimenta com o melhor das sobras das mesas dos bares que vão de restos de farofa a osso de galinha (que dizem que mata, mas ninguém tá nem aí, menos ainda os cachorros).
      O sotaque daqui é cheio de “experteza”, muita “experança”, e muita gente faz muita coisa “excondido”, o que não resolve muito porque todo mundo acaba “expionando” e claro, passando tudo à boca-miúda a partir da missa das seis da manhã do domingo.
      Da minha janela vejo a rua de um modo somente meu. Vejo as crianças com suas mochilas escolares desengonçadamente ajeitadas nas suas costas e as respectivas mães logo atrás sem nenhum receio de bala perdida de assalto nem de sequestro. Apenas dizem de vez em quando: Claudirley vem aqui! Jocyleide, não corre menina! Da minha janela observo o sol e o céu antes de sair de casa para saber se irá chover. Da outra janela ouço meu vizinho ouvindo música alta e cantando músicas da Shakira no tom dela, junto com ela, ou seja, ele imitando aquela voz de mulher e com uma voz brilhante, irritante, mas ele por algum motivo secreto, feliz.
      Paralelepípedos escorregadios, cheiro de terra quando chove, mortadela cortada na faca como tira-gosto para a cachaça de engenho, um carro de som que anuncia as promoções do mercado do David e outros anunciando botijões de várias marcas, tudo isso na minha rua e diariamente. Aqui, de onde vejo a vida não vejo aviões, não mesmo, mas vejo carrinhos de rolimãs ainda feitos à mão pelos moleques que provavelmente aprenderam como arquiteta-los com seus pais.
      Minha rua é um mundo ao qual tenho orgulho de pertencer. Já estive em muito lugar nessa vida, muita cidade grande. Aqui na minha rua os velhos levantam seus chapéus entre si e também para mim que não uso chapéu e dizem; “Bom dia”. É um mundo pequeno, porém necessário. Voltei ao que eu sempre quis ter sido, eu mesmo.
      Agora sou apenas um moleque que também andava de carrinho de rolimãs, os moradores mais velhos me chamam de “Aryzinho” e eu sequer me importo com isso. Aqui sou mesmo o menino de tempo ocorrido entre bolas de gude e de futebol jogadas bem no meio da rua com a intromissão muito rara de um carro que passava e buzinava desde longe para nos alertar da sua presença Entre mariolas e doces de amendoim, entre não fugir de chuva nem de ter medo do “Paulinho-Maluco” que minha mãe tentava me convencer de que ele comia criancinhas desobedientes. Eu ficava na rua o tempo que a vida me permitia. Medo mesmo, que eu me lembre, só de um cachorro bravo que às vezes aparecia lá, mas certamente já morreu de velhice. Era assim a vida vivida.
      Hoje, da minha janela, sei que esta sempre foi a minha rua, aqui está parte da minha infância, aqui é o meu lugar, meu país. Aqui é o universo ao qual eu pertenço. Sem precisar ser quem fui naquela outra cidade tão grande e tão cheia de gente vazia. Aqui sou uma pedra do calçamento que nunca saiu do lugar, da minha rua. Meu universo inteirinho agora é novamente aqui e cabe na minha rua, e pode ser visto pela janela da minha casa. Acho que só quem não vive mais aqui é o “Paulinho-Maluco” e também não importa porque eu não tenho mais medo dele.

Não sou mais criança, mas voltei a ser o Aryzinho.

2016

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Ler e reler

        Ando relendo meus textos. Descobri que quanto mais me leio e me releio, menos eu me entendo.
        Não sei se sou bom em escrever nem em ler, menos ainda em reler. Não sei por que cheguei a pensar em colocar o nome do meu blog de “ler e reler”, depois eu desisti, mas no fundo até que eu gostava desse título. Gosto de não saber-me.  Às vezes rio-me, outras vezes odeio-me. Tenho vontade de escrever para mim mesmo comentários nem sempre delicados em relação ao que escrevo. Nem sempre concordo comigo. Já cheguei a dormir revoltado com o que eu escrevi, mas escrevi, e daí?
        Ontem li uma coisa que eu escrevi e discordei completamente de mim mesmo. Perguntei-me de onde eu havia tirado aquela ideia. Acho que foi de dentro de uma garrafa de vodka, ou coisa parecida. Hoje não fui à missa e tomei uísque, acho que isso mudou minha percepção e minhas verdades, aliás, se há coisas subjetivas na vida são as verdades.  Agora com cinqüenta e tais anos já descobri umas quatro ou cinco verdades diferentes sobre quem descobriu o Brasil. Foi Pedro Álvares Cabral, foi Duarte Pacheco Pereira? Foi em 1500 ou em 1496? E os índios brasileiros de onde vieram? E por aí se vão e vêm as verdades.
        Hoje, oito de novembro de dois mil e catorze foi dia de prova do ENEM. Acho que eu não passaria no quesito redação, porém, e se em vez de eu ter escrito uma redação para o ENEM hoje eu apenas colocasse o endereço do meu blog e o examinador gostasse pelo menos de alguns textos meus? Ele poderia discordar, é claro, das minhas ideias, das minhas palavras e também poderia não entender-me e ao não me entender, reler, então tudo faria sentido, até mesmo a incompreensão do texto. Acho que “ler e reler” seria um bom título para o meu blog, se bem que não sei se eu seria aprovado na prova de geografia.

Nov/2014

Palavras

Caso uma palavra: Amo
Caso duas palavras: Te amo
Caso três palavras: Ainda te amo
Caso quatro palavras: Te amarei para sempre
Caso cinco palavras: O amor não tem prazo
Caso seis palavras: Te amo mais do que ontem
Caso sete palavras: O amor não tem prazo de validade
Caso oito palavras: O amor vale o tempo que for amado
Caso nove palavras: Nove palavras
* * *
Mais de dez palavras  já passa a ser uma declaração de amor. Tente!

Vida

A única maneira de se fazer as pazes com e vida é morrer. Brigamos durante toda a vida. Com nossos filhos, com nossos vizinhos, com nossos amigos, com nossos inimigos e com nós mesmos, às vezes quando vamos dormir, outras vezes quando acordamos e nos olhamos no espelho. A vida não tem nada a ver com isso, ela apenas nos diz a cada dia: “Muito prazer” e a gente chora quando é novamente apresentado a ela. A vida nos acolhe e a gente começa a inventar problemas que não existiriam se a gente apenas se deixasse viver, olhasse para ela com amor, carinho compreensão e soubesse que ela não pede nada da gente. Normalmente não perdoamos a nossa vida e no final ela perdoa a gente.  Dá-nos as costas, vai embora sem nos pedir nada. Apenas vai embora cantando uma música que a gente deveria ter cantado ontem,
         Ontem a gente não cantou a tal música, enquanto que hoje é nunca mais e a morte na sua generosidade nos perdoa por isso. Podemos morrer com mil culpas, mas a morte está em paz com a gente. E nos recebe, não sei onde, com mil perdões.


Jan/2016