terça-feira, 2 de agosto de 2016

De volta ao ninho

De tanta vida, de tanta ida
Voltei ao meu mesmo lugar
De jogar bola, de infância
De tanta saudade
De tanto disputar par ou ímpar
Jogo de botão  então...
De aprendizado, quando
Eu perguntava para minha mãe
Como ela sabia se ia chover
E ele apenas dizia:
- Olha pro céu. Se estiver escuro vai chover!
Eu ia até longe do que era longe para mim
Eu ia de mão dada, não olhando para o chão
Apenas confiando na mão da minha mãe
E achando que agora eu sabia quando iria chover.
Bastava olhar para o céu.
Era fácil saber quando eu e minha mãe iríamos sair.
Ela não tinha muitos vestidos – nunca usou calça comprida – Uns vestidos eram para ficar em casa, outros, para sair.
Eu sabia sobre o dia de acordo com o vestido da minha mãe.
Garanto que isso é verdade.
Dona Enéia era assim, de uma simplicidade sem palavras, mas repleta de filosofia.
Agora mais de cinquenta anos depois, quando eu quero saber se vai chover, olho para o céu e vejo mais a minha mãe do que vejo o céu. Nem percebo que sorrio ao fingir perguntar: Mãe, será que vai chover?
* * *
Tantas memórias, quando de volta ao ninho
Voltei sozinho com apenas uma mala
Mala cheia de saudade e de  vontade de vir pra ficar
Mala que quando abro encontro recordações, fatos e fotos de gente que é tão jovem nas imagens
Mas que envelhecem  quando eu as vejo.
Nas fotos as pessoas são menos tristes, talvez.

Voando de volta ao ninho, eu quase inteiro
Ele como sempre foi no passado
Eu quase inteiramente feliz
Eu dentro de minha própria mala
Mala repleta de minhas lembranças
Saudades, várias... E um violão
Que vai fora da mala.
Violões e asas não cabem em malas
Elas não se destinam a isto
Asas e violões são para voar pra outro lugar.
Não se deve jogar malas fora.
Nunca se sabe quando será a próxima viagem
Pode ser amanhã, pode ser ainda hoje,
Pode-se ter que preparar repentinamente
Uma mala para me jogar em outro vôo
Com o mesmo violão,
Para outro ninho.

São 03h.25min

2016

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