Achei
que era sua voz que se calara quando ela foi embora. Ledo engano. Ela saiu não
com apenas ela. Sutilmente me levou embora. Levou consigo duas pessoas. Ela não
foi sozinha. Foi com meu coração, e além disso levou duas coisas que me eram
preciosas. As duas mãos com as quais eu tocava piano. Nunca mais toquei piano
porque amputado não se toca. Também sem coração não se toca piano. Entre nós não foi necessário levantar a voz
um ao outro, não foi necessária a despedida. Foi necessário dilacerarmos nossos
corações cada um à sua maneira. Fomos ambos amputados, e assim vivemos; eu sem
coração e sem mãos para tocar piano. Ela
não precisa me contar a sua parte. Não
sei quando a cicatriz fechará, mas ainda não estou curado. Não consigo tocar
nenhuma música inteira. Paro sempre pela metade, ou até antes da metade. Tentei
tocar piano hoje, não consegui, novamente não fui capaz. Sei que é culpa minha
não conseguir tocar piano. Meus dedos não correspondem mais ao meu coração. As
mãos que não tenho mais não me obedecem porque deixaram de existir. Acho que
estão dentro das malas que ela levou consigo. O piano sabe disso. Parece que
ele olha para mim e me diz que não faz mais sentido tocar. Já é quase meia
noite. Vou dormir logo, mas não sem antes escrever para só depois deixar meu
coração dormir também.
Quem
sabe um dia, uma tarde, uma noite qualquer eu passando distraidamente por um
piano ele olhe para mim e me diga: “Venha aqui, sente-se à minha frente que
estou pronto para você viver novamente”.
Espero
que ela não esqueça que minhas mãos ainda estão dentro das malas que foram
embora e prontas para tocar novamente porque é para ela que voltarei a tocar
piano. Não pense que isso é ruim. Isso é apenas amor.
-
Tomara -.
Nenhum comentário:
Postar um comentário