sábado, 6 de agosto de 2016

Achei

        Achei que era sua voz que se calara quando ela foi embora. Ledo engano. Ela saiu não com apenas ela. Sutilmente me levou embora. Levou consigo duas pessoas. Ela não foi sozinha. Foi com meu coração, e além disso levou duas coisas que me eram preciosas. As duas mãos com as quais eu tocava piano. Nunca mais toquei piano porque amputado não se toca. Também sem coração não se toca piano.  Entre nós não foi necessário levantar a voz um ao outro, não foi necessária a despedida. Foi necessário dilacerarmos nossos corações cada um à sua maneira. Fomos ambos amputados, e assim vivemos; eu sem coração e sem mãos para tocar piano.  Ela não precisa me contar a sua parte. Não sei quando a cicatriz fechará, mas ainda não estou curado. Não consigo tocar nenhuma música inteira. Paro sempre pela metade, ou até antes da metade. Tentei tocar piano hoje, não consegui, novamente não fui capaz. Sei que é culpa minha não conseguir tocar piano. Meus dedos não correspondem mais ao meu coração. As mãos que não tenho mais não me obedecem porque deixaram de existir. Acho que estão dentro das malas que ela levou consigo. O piano sabe disso. Parece que ele olha para mim e me diz que não faz mais sentido tocar. Já é quase meia noite. Vou dormir logo, mas não sem antes escrever para só depois deixar meu coração dormir também.
        Quem sabe um dia, uma tarde, uma noite qualquer eu passando distraidamente por um piano ele olhe para mim e me diga: “Venha aqui, sente-se à minha frente que estou pronto para você viver novamente”.
        Espero que ela não esqueça que minhas mãos ainda estão dentro das malas que foram embora e prontas para tocar novamente porque é para ela que voltarei a tocar piano. Não pense que isso é ruim. Isso é apenas amor.
        - Tomara -.


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