Da janela do oitavo andar, no living do
meu antigo apartamento, eu via o aeroporto e a larga e longa avenida que
terminava nunca eu sabia onde. Agora da janela da minha saleta, debruçado no
estreito parapeito eu vejo pipas conduzidas por meninos que não sei nunca onde
estão. Não os vejo e a rua termina alguns metros antes do alcance da minha
visão e no céu não sobem nem descem aviões.
Da outra janela – a do meu quarto – ouço o
procotó, procotó de cascos de cavalos às vezes lento às vezes mais rápidos que
se transformam em música cadenciada aos meus ouvidos e eu imagino-os brancos,
marrons, ou de outra cor qualquer que eu invento sem vê-los, apenas por
imaginar-lhes grandes ou pequenos com crianças em cima deles, coisa que
realmente já vi e que guardei na memória para poder imaginar depois.
Inspiro e beijo o meu próprio ar. Expiro,
olho para o céu e lembro o quanto ele sempre foi azul. Minhas gravatas, meus
ternos tudo está guardado em um guarda-roupa que nem seu mais para que servem
as gravatas nem os ternos nem o guarda-roupa, já que um punhadinho de t-shirts dá
conta da necessidade dos meus ires e vires diariamente ao centro da cidade ou
alguma quermesse.
Inspiro, expiro, saio de sandálias e camiseta,
o mercado é logo ali na outra esquina. Uso dinheiro mesmo nem tenho mais cartão
de crédito, aliás, nem preciso de crédito. Meu dinheiro me basta para comprar o
que eu preciso. Meus netos vão a pé pra minha casa brincando e se divertindo
com os cachorros conhecidos e não precisam sequer atravessar a rua para chegar à
casa do vô.
A porta da minha casa não possui nada além
de um trinco de ferro que nem sempre me lembro de trancar durante a noite. Tenho
um fogão a gás que quase não uso e outro a lenha que passa o dia inteiro
esquentando a cozinha no inverno. O céu da cidade onde eu moro é possível que
as estrelas sejam infinitamente contadas com a ponta de um dedo e a lua é tão
branca que quando cheia parece ser um sol genérico de tanto que ilumina as ruas.
A única poluição de que tenho conhecimento aqui é a sonora do velho que passa
com a carroça vendendo verduras frescas, gritando muito alto e tocando uma
buzina manual e estridente: “Olha a alface, olha o tomate, olha a beterraba,
olha a batata” e por aí vai, num repertório que nunca é exatamente o mesmo.
Na minha rua - como não poderia deixar de
ser - há aquelas fofoqueiras antigas, beatas, que não perdem a missa por nada
desse mundo e que são conhecidas menos pelas suas “beatices” do que pelas suas
“fofoquices”.
Aqui todos os cachorros de rua possuem
nomes. Flamenguista, vascaíno, pó de arroz, americano, botafoguense... Não tem
corinthiano nem palmeirense sequer são paulino, mas tem friburguense. Dia de
jogo cada torcida alimenta um, de acordo com seus nomes e a camisa de quem os
alimenta com o melhor das sobras das mesas dos bares que vão de restos de
farofa a osso de galinha (que dizem que mata, mas ninguém tá nem aí, menos
ainda os cachorros).
O sotaque daqui é cheio de “experteza”,
muita “experança”, e muita gente faz muita coisa “excondido”, o que não resolve
muito porque todo mundo acaba “expionando” e claro, passando tudo à boca-miúda a
partir da missa das seis da manhã do domingo.
Da minha janela vejo a rua de um modo
somente meu. Vejo as crianças com suas mochilas escolares desengonçadamente
ajeitadas nas suas costas e as respectivas mães logo atrás sem nenhum receio de
bala perdida de assalto nem de sequestro. Apenas dizem de vez em quando: Claudirley
vem aqui! Jocyleide, não corre menina! Da minha janela observo o sol e o céu
antes de sair de casa para saber se irá chover. Da outra janela ouço meu
vizinho ouvindo música alta e cantando músicas da Shakira no tom dela, junto
com ela, ou seja, ele imitando aquela voz de mulher e com uma voz brilhante,
irritante, mas ele por algum motivo secreto, feliz.
Paralelepípedos escorregadios, cheiro de
terra quando chove, mortadela cortada na faca como tira-gosto para a cachaça de
engenho, um carro de som que anuncia as promoções do mercado do David e outros
anunciando botijões de várias marcas, tudo isso na minha rua e diariamente.
Aqui, de onde vejo a vida não vejo aviões, não mesmo, mas vejo carrinhos de
rolimãs ainda feitos à mão pelos moleques que provavelmente aprenderam como
arquiteta-los com seus pais.
Minha rua é um mundo ao qual tenho orgulho
de pertencer. Já estive em muito lugar nessa vida, muita cidade grande. Aqui na
minha rua os velhos levantam seus chapéus entre si e também para mim que não
uso chapéu e dizem; “Bom dia”. É um mundo pequeno, porém necessário. Voltei ao
que eu sempre quis ter sido, eu mesmo.
Agora sou apenas um moleque que também andava
de carrinho de rolimãs, os moradores mais velhos me chamam de “Aryzinho” e eu
sequer me importo com isso. Aqui sou mesmo o menino de tempo ocorrido entre
bolas de gude e de futebol jogadas bem no meio da rua com a intromissão muito
rara de um carro que passava e buzinava desde longe para nos alertar da sua
presença Entre mariolas e doces de amendoim, entre não fugir de chuva nem de ter
medo do “Paulinho-Maluco” que minha mãe tentava me convencer de que ele comia
criancinhas desobedientes. Eu ficava na rua o tempo que a vida me permitia.
Medo mesmo, que eu me lembre, só de um cachorro bravo que às vezes aparecia lá,
mas certamente já morreu de velhice. Era assim a vida vivida.
Hoje, da minha janela, sei que esta sempre
foi a minha rua, aqui está parte da minha infância, aqui é o meu lugar, meu
país. Aqui é o universo ao qual eu pertenço. Sem precisar ser quem fui naquela
outra cidade tão grande e tão cheia de gente vazia. Aqui sou uma pedra do
calçamento que nunca saiu do lugar, da minha rua. Meu universo inteirinho agora
é novamente aqui e cabe na minha rua, e pode ser visto pela janela da minha
casa. Acho que só quem não vive mais aqui é o “Paulinho-Maluco” e também não
importa porque eu não tenho mais medo dele.
Não sou mais
criança, mas voltei a ser o Aryzinho.
2016
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