É o amor, algo que nos tira de onde estamos e nos transporta
pra outro lugar que nunca sabemos onde é. Ainda que já tenhamos feito, ou ainda
que venhamos a fazer outras viagens, nunca seremos capazes de saber qual será a
nova estação desse trem. Faz parte de um destino que só ele escolhe e nos
coloca na estação à espera do lugar que está reservado para nós. Sempre saímos
com malas vazias, sem bagagem, sem saber de nada. Sabemos que estamos
embarcando, indo sem rumo, e por mais que haja medo, há esperança e coragem de
chegarmos ao destino. E assim, ele, o amor, nos empresta sua convicção de que tudo
irá dá certo e nos mostra apenas os degraus da escada de entrada para o trem.
Entramos, somos sempre surpreendidos por não sabermos de nada do que vai
acontecer. Entregamo-nos à viagem, sonhamos e supomos que ao chegar sempre
seremos bem recebidos. Assim seguimos cegados pelo que o amor nos leva a crer
que seja a perfeição do encontro ao fim da viagem, mas antes da viagem, sem que
percebamos sempre já há alguém à nossa espera. Alguém que nos dará a mão para
que viajemos juntos. O percurso pode ser longo, dias, meses, anos, mas depois
que se encontra a pessoa que foi escolhida para viajar com a gente, então tudo
fica mais fácil. O trem vai, anda, para, segue novamente. Há de se apreciar a
paisagem. Os dias ficam mais bonitos, os meses ficam menos longos e os anos não
pesam na bagagem. Depois que por acaso encontramos o parceiro da viagem,
sabemos que iremos até o fim juntos, rindo, almoçando, jantando, dormindo,
acordando, até sofrendo, mas, tudo sempre junto. As mãos não se desgrudam. Os
corpos não se desencostam nem as almas se separam jamais.
O trem balança, a gente se segura, o trem faz curvas e
a gente se olha, o trem desce, sobe a gente se abraça. Não me esqueço de quando
subi naquele trem, sem destino. Só havia três degraus para subir e eu subi e
segui até o fundo do trem, não preocupado com a viagem nem com o destino. Quem
me levaria nem era o trem, nem o caminho do trem. Ela. Era quem me levaria a
partir dos tais três degraus do trem. Ali, de olhos fechados eu a via e a
sentia de mãos dadas, de corpos juntos, e quando o trem balançava, eu me
abraçava a ela. E foi assim que se passou a viagem na qual eu não vi as horas,
os dias, os meses, e os anos se passaram até que meus cabelos ficassem mais
brancos... Mas que viagem bonita!
* * *
Certo dia, uma hora incerta, havia um sol tímido e o
céu era cinza na estação. O trem tinha que partir. Partir de volta e de novo
três degraus pra eu subir. Meus pés eram menos firmes, meu rosto mais enrugado,
em minhas mãos eu levava de volta os calos do esforço da ida, mas sei que no
meu semblante uma sensação do dever cumprido insistia em permanecer. Lembro-me
de ter ouvido o som de alguém tocando uma música ao longe, o que me fez sorrir
e olhar para trás sem ter visto ninguém, afinal a música não importava, eu não
a reconhecia. O trem era azul, como talvez o tivesse sido quando vim, sem que
nunca lho tivesse notado a cor antes. Os degraus estavam ali à minha espera. O
cheiro era de infância, mas nem por isto eu viria a reconhecer alguém lá dentro.
Subi os três degraus com mais esforço e mais calma do que da vez anterior. O
trem estava vazio apenas com dois cheiros misturados. Um de passado e outro que
eu não fazia idéia do que era, acho que era cheiro de futuro.
Viajei não sei por quanto tempo, talvez por décadas
sentindo, sozinho, os balanços, as subidas, as descidas, sentindo de olhos
abertos cada curva, cada árvore sem saber se elas já estavam lá antes. Teria
quanto tempo durado a viagem? Teria eu adormecido supondo estar seguro pela mão
de alguém, ou sendo aquecido por algum abraço que na verdade não existiu jamais?
* * *
Três degraus pela terceira vez. O lugar e meu coração
estavam frios. Um cigarro foi minha companhia no meu primeiro respirar depois
dos três degraus descidos no mesmo local onde eu os subira fazia trinta anos e
onde eu apenas rezara sem fumar. Esfreguei minhas mãos uma na outra, não havia
outras mãos para eu apertar, esquentei-me abraçando a mim mesmo, do outro lado
uma rua e tudo de novo... Agora era outono. Eu sabia de outro inverno vindo,
mas o cão que dormia encolhido na beira da calçada e que lhe dei o nome de
“trilho” (já que ele não possuía dono e vivia, suponho, trilhando o seu caminho
sozinho) me olhou e pareceu que piscou com o olho esquerdo para mim garantindo
que ainda estaria ali na primavera. Os passarinhos estavam tímidos, mas afinal,
a vida prevaleceria mesmo com a friagem que fazia o vento já parecia incidir na
pele, ainda que, com a delicadeza da navalha que nos corta sutilmente e sem dor.
O vendedor de pipocas esperava a todos os que desciam do trem, no caso apenas
eu, mas ele estava animado e com um bafo de rum, porque o time dele tinha sido
campeão sei lá do quê...
Assim foi a minha segunda ida.
* * *
Instalei-me num lugar no qual coloquei a chave na
porta e vi apenas que era quase vazio, repousava ali apenas uma cama, um
travesseiro, um chuveiro que não funcionava direito e um cheiro de mofo que não
esqueço. O lugar não me remetia a nada, aliás, me supunha imaginar uma prisão a
qual eu inconscientemente escolhera. Eu e o lugar éramos sem passado. Eu e o tal
lugar e o tal cachorro magrelo, e o tal passado e o tal futuro começávamos tudo
agora. Peguei outro cigarro, o último do maço e fumei sem sentir nenhum prazer.
A senhora, velha e gorda, dona da pensão perguntou se eu queria alguma coisa e
eu respondi: “Viver de novo”, ao que ela fez cara e sorriso de Frida Kahlo e sem
mais palavra foi embora.
* * *
Acordei com um barulho estranho, em seguida outro. Era
o sino da igreja que badalava um som monótono. Havia tempo que eu não ouvia algo
tão desnecessário. Fiquei tentando decifrar sem sucesso qual música o sino
tocava. Senti paz. Em seguida um monte
de passarinhos tinha resolvido gorjear justamente próximo à minha janela. Eu
já não morava mais naquele lugar da velha gorda, era outro, perto de onde eu
morava quando eu era criança. Aos poucos fui me lembrando da música do sino da
igreja onde eu recebera a minha primeira comunhão e relembrei os cantos dos
sabiás e dos bem-te-vis. Eu estava de volta à minha casa, ao meu passado. Tomei
o banho mais demorado do qual me lembro, fiz a barba, saí cumprimentando as
pessoas que eu não conhecia, passei pela padaria e comprei coisas que eu não
precisava, sentei-me em frente a um lugar qualquer onde havia sol suficiente e
pedi uma cerveja e um novo maço de cigarros. Quando dei por mim havia o mesmo
cachorro magrelo ao meu lado, quieto, que sem latir, me deu uma piscada com
olho esquerdo. Então eu soube que já era primavera. Depois eu percebi que entre
a minha casa e a rua havia só três degraus que eu, a partir daquele dia, iria
subir e descer sempre e sempre.
* * *
O Trilho - última cena -
“Não sinto falta dela, mas sinto falta de nós dois”, afinal,
foi uma bela viagem juntos e que o tempo não irá ter a menor importância em quando
tenhamos chegado ao nosso destino final, mas será para sempre inesquecível. Sempre
haverá uma primavera, foi o que me garantiram os passarinhos e aquele tal cão magrelo
e vira-latas que persistente dorme encolhido naquela estação e que eu acho que quando
me vê, pisca sorrateiramente o olho esquerdo para mim quando eu me sento perto
dele e assim ficamos ambos olhando um novo trem chegar. Nós nos tornamos
cúmplices de uma espera refletida nos nossos olhos. Talvez ele também espere
que outro alguém com apenas uma maleta na mão um dia desça aqueles três degraus
do trem e que mesmo com frio olhe para ambos os trilhos, o do trem, e o Trilho do olho
capenga e saiba que sempre haverá tantas e mais vindas e partidas.
- O Trilho
pareceu confirmar aquilo que eu pensava e novamente com o suposto piscar do seu
olho esquerdo -.
Todo dia chega um trem com pessoas que trazem nas suas
sacolas, muitos sonhos. Nem sempre elas percebem os degraus, sequer os trilhos
do trem que as trouxe. Umas olham para o céu e parece que pedem coisas a Deus.
Outras pedem para que se esqueçam do seu próprio passado e ainda outras pedem
um futuro. Eu as observo e dou apenas uma piscadela com meu olho esquerdo para
o Trilho enquanto divido com ele um sanduíche de mortadela que comprara na
padaria.
Nova Friburgo
04/08/16
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