sábado, 30 de julho de 2016

Complicado imaginar

        Complicado imaginar que não somos eternos... Ou será que somos? Por intermédio dos nossos filhos, nossos netos e assim por diante...
        Complicado imaginar que alguns amores não sejam eternos, ainda que distantes, inacessíveis aos olhos, às mãos ou a corações.
        Complicado viver, mais complicado ainda, morrer.    Qual a certeza do que há atrás daquela porta? Será que há alguém que nos espera do lado de lá? E o tal São Pedro com um livro de convidados para a festa do céu? E o diabo com um garfo na mão nos aguardando para sermos jogados num caldeirão cheio de óleo? E se nossos familiares mortos vierem nos receber – seja no céu, seja no inferno – vivinhos da silva? E se eu me encontrar com o gerente do banco? E se o delegado me encontrar mesmo depois de mortos eu e ele? E se não for nada disso? Se não houver o gerente do banco, nem o caldeirão, nem o São Pedro com o tal livro? E se simplesmente a terra for suficiente para representar a morte com a gente lá em baixo bem enterradinho mesmo e pra garantir, dentro de um caixão bem tarraxado? Lembrei agora: O céu não é azul. Pelo menos, não ao entardecer ou ao amanhecer. Tanto em um quanto no outro momento o céu é cor de fogo e isso muda alguns conceitos para mim. E se a túnica dos anjos não for branca? E se nem todos os padres estiverem por lá? E se o diabo não for tão feio quanto parece?
        Ainda não morri, nem sei quando acontecerá. Caso se confirme, ou não, essas hipóteses, mas exista reencarnação, prometo contar tudo o que aprendi com a morte. Por enquanto, por via das dúvidas, vou rezando minhas ave-Marias e meus pai-nossos. Vai que tem alguém em algum lugar me ouvindo e levando minhas orações a sério...
2016

Acho que

        Acho que ando perdendo um pouco o jeito para escrever, ainda não sei no que se transformou aquela vontade de há algum tempo, mas não anda mais igual, Tô até um tanto sem graça. Tudo anda meio triste, afinal não tem mais aquela bagunça pela casa e eu só ouço novamente o meu silêncio, enfim... Todo dia eu me sento aqui na frente do computador e fico olhando, ora para o teclado, ora para a tela e nada, sequer uma palavra. Anda tudo sem sal, sem tempero, sem molho, sem champignon, sabe como? Acho que o que antes era pura inspiração está virando uma grande e irreversível [definitiva] saudade... Acho que vou ler mais um pouco, quem sabe lendo, eu encontre algo que me faça entender alguma coisa... Outra opção é ouvir Vinícius de Moraes, quem sabe lendo Vinicius algum amor perdido por aí renasça em mim.


02/01/10

Música é música

        Música é música, e pronto.

        Pode ser brega, poder “Cult” e pode ser só música.
Não precisa ser mais nada. Além disso. Ela sempre vai além do que se previra.
        Música pode ser em teatro, em feira de domingo comendo pastel, em elevador pensando na reunião em motel, só pensando... Pode ser assoviada, pode ser ridícula, e música pode ser tão sua que só você entenda porque a está assoviando.
        Música é uma bobagem séria, profunda ou insignificante, ouvida num rádio de pilha, quando sem se notar se esquece do tempo e o tempo é o tempo da música. Dá vontade de dançar, dá vontade de chorar, dá vontade de rir, dá vontade de ser criança e dá vontade de voltar no tempo lembrando-se daquela namorada que a gente nunca namorou, mas que a tal namorada é a música que a gente pensou que fosse o amor. O amor nos dribla em música, e riem da gente tanto a música quanto o amor.
        Não se desaprende nunca a andar de bicicleta nem a nadar, aprende-se a cair da bicicleta e no mar aprende-se a não temê-lo. Assim, voltamos ao mar, à bicicleta de novo, e sem que percebamos estamos lá assoviando aquela melodia antiga que nos ensinou a nadar e nos equilibrarmos em duas rodas.
        Sem que queiramos ou percebamos, estamos ali na calçada, fazendo um monumental bico, com a língua entre os dentes e ridiculamente assoprando como a vida nos quer “des-ridicularizados” pelo amor e sem medo de cair seja da bicicleta, seja de mergulhar no mar ou de se desenganar. Seja a música dançante como um bolero, calma como um  samba canção, seja sofrida como um tango, mas primordialmente nos remeta aos lugares que sem ela seria impossível reviver nossa própria vida.   Música é música e pronto!

“Música é o que se ouve de dentro da gente, não de fora.”


terça-feira, 26 de julho de 2016

A menina

A menina nasceu bonitinha. Agora está bonitona
A menina é muito educada apesar do gênio forte
O seu carinho é muito gostoso
E eu gosto de contar estórias pra ela
Vivo inventando coisas pra gente fazer junto
Agora estamos na fase do campeonato
De jogo de damas – por enquanto tá empatado -
A cada dia ela me deixa mais orgulhoso
Com seus novos aprendizados e descobertas
Fico feliz quando os olhinhos dela brilham
Daqui a pouco, já, já ela vai ter sua própria vida
E eu não serei necessário
Nem pra jogar damas com ela
O tempo corre e a gente não acompanha
Quando vê ele escorregou como areia fininha
Que o vento logo se encarrega de levar embora
E assim segue a vida nesse moto-contínuo
Criamos, eu e ela um código particular
Que nem lembro direito como funcionava
Mas o nome do código era M.A.
“Mini Adolescente” que ela usava para mim
Quando estava em crise existencial
(Isso lá pelos dez, onze anos de idade)
Desta forma a gente nunca se desentendia
Ela acabava sempre colocando
A responsabilidade de nossas divergências
Na sua pré-adolescência
Eu sei lá onde ela ouviu aprendeu este termo
Engraçado que agora a gente nem usa mais M.A.
Ele já faz parte do passado
Agora ela já se considera uma futura adulta
Acho que vou ligar pra ela e lhe propor
Esse novo código: F.A.
Parece que estou vendo o rostinho da minha neta, Alice me recriminando, mas depois rindo junto comigo:
“Ai, vôoooo, lá vem você com essas suas ideias malucas, de novo, né?!!!” F.A. - Onde já se viu?!

2016

sábado, 23 de julho de 2016

Coisas

A gente acaba um dia achando que sabe sobre uma série de coisas, história, matemática, leis. Não é mesmo? E a gente acaba também supondo que sabe sobre o que é o amor, sobre o que é o amar. Pois é... Esta coisa chamada amor não nos permite saber o que ela é, não nos dá a menor chance de termos experiência sobre ela. Ela nos leva, nos leva, nos leva, e a gente supõe que a sabe só porque um dia já amou, mas não é assim que funciona.  O amor é mutável. Nunca se pensa que se vai poder amar de novo e mais e melhor. O amor não faz questão nenhuma que se pense isto sobre ele. Ele deixa o coração da gente congelar, deixa a gente, quietinho e quando menos se espera, ele volta com do jeito mais ingênuo deste mundo pegando-nos despreparados. Ele se reinstala e fica ali como que se divertindo pela nossa inexperiência. A gente vai dormir pensando que desta vez já entendeu como ele age, pura ilusão. Como um vírus despertado ele faz a gente sonhar de novo, faz a gente querer de novo, faz a gente se iludir de novo. O que deve ser esta coisa chamada amor, onde será que ela fica dentro da gente, que adormece e de repente volta a incomodar como uma dor num membro amputado? Que função teria então o amor? Fazer-nos reviver, se repete, mas nunca da mesma forma nem com a mesma intensidade e traz-nos de volta (a)à vida com a vitalidade de uma Fênix? Não sei. Só sei que está delicioso senti-lo dentro de mim, quando eu acreditava que meu coração já era um membro mutilado. E quer saber? Não dói nadinha, como se nunca houvesse havido antes, sequer um antigo coração.


17/11/09

Detinha

-Detinha! Acorda que já “enclareceu”!!!
Era assim que meu neto, Gabriel, avisava tia Beth que já é outro dia e sempre com abraço e um beijo orgulhava tia Beth. Detinha, eu te amo muito. É assim que ele a subornava durante o resto do dia.
       Gabriel manda e a tia Beth obedece sem reclamar.
Tia Beth ainda dorme sentada ao lado de Gabriel até que o sono dele seja forte suficiente para que ela ao acordar de madrugada pegue-o no colo e o leve para cama, então depois ela fica num sono de vigília ao lado de seu sono profundo.
Gabriel inventou a “Detinha”. Transformou o nome da tia Beth do jeito que bem lhe aprouve e ficou por isso mesmo. Tia Beth transformou-se em Detinha para a maior parte da família.
Eu ensinei ao Gabriel a tomar bênção ao vovô e falar que as coisas boas ou agradáveis são “muito excelentes”.
        Detinha está para completar setenta anos. Alguém acha que eu vou brigar com ela porque ela está deseducando o meu neto?
Ela é mais mãe dele do que a mãe dele. Detinha me criou, quando ainda não era Detinha, criou minhas filhas quando ainda não era Detinha e agora está criando meus netos. Quase setenta anos para conseguir ser Detinha. 
        Detinha me liga para avisar que fez aquele feijão que eu gosto. É na casa da Detinha que o amigo secreto resiste e une a família toda nos finais de ano. No dia das mães a gente almoça na casa da Detinha. Se alguém tá doente, Detinha faz sopa e leva pra casa da gente.
        Detinha nunca teve seus próprios filhos. Tem sim um universo de filhos e de afilhados  que ela construiu desde quando o dia ainda nem havia “enclarecido”.

2014

Duas e dez

Estou ficando cada vez mais tudo: Mais chato, mais exigente, mais insuportável, mais quieto e agora estou ficando mais ranzinza também, mas não tem problema, estou mais com quem não ter com quem conversar e, portanto me permito tudo isto.
        Acordei e não sabia se estava meio bêbado ou meio cego, porque eu só via um ponteiro no relógio que fica na cozinha, depois descobri que eu não era nem uma coisa nem outra, apenas eram duas e dez da manhã. Eu estava em busca de algo para comer e enquanto fazia uma varredura sem sucesso pela geladeira pensei em duas coisas: Nela e em uma música. O seu nome eu sabia, é claro, mas eu não sabia o nome da música que fizera eu me lembrar dela. Duas e dezoito liguei o computador sem a menor ideia de como iria encontrar a tal música, mas eu me conhecendo, preparei-me para encontrá-la a qualquer custo mesmo sem saber o seu nome. Revirei minha memória e nada, nenhuma pista, só tinha uns fragmentos da letra, mas o fato de ser cada vez mais teimoso ajudou. Abri uma cerveja e então... Fui à luta, cerveja em punho.
Estou mais um monte de coisas, mais velho, claro, mas voltei no tempo e isto me fez bem. Não fora esse meu jeito quase incompreensível de ser eu não teria conseguido voltar ao meu passado nem encontrado a música que a insônia me obrigara a procurar. Dizem que o tempo não volta, mas eu do meu jeito consigo até isto, voltar no tempo. Não vou escrever mais porque dentro dos meus “mais”, também hoje estou mais saudoso do que de costume.
Ah! O nome da música? “Diga lá coração” do Gonzaguinha.


Friburgo, quatro da manhã de 2012.

Entrevista

Entrevista não autorizada
 ... Bate bola rápido:

- Melhor momento?
- Minha primeira comunhão
- Pior momento?
- Ainda não tive
- Melhor saudade?
- Ainda não tive
 - Pior lembrança?
 - Inconfessável
 - Melhor lugar?
 - Minha casa
 - Pior lugar?
 - Longe de casa
- Melhor bebida?
- Vodka gelada
- Pior bebida?
- Vodka sem gelo
-Melhor sensação?
- Orgasmo
- Pior sensação?
- Medo
Maior orgulho?
- Filhos
- Maior decepção?
-Meu pai
- Maior expectativa?
-Aprender a perdoar
- Menor expectativa?
- Céu
-Melhor filme?
Casablanca e tudo do Chaplin
- Melhor cantor?
- Como diz o Cauby não há melhor cantor no Brasil, mas o segundo é o Emilio Santiago
-Pior cantor?
- Os outros depois do Emílio Santiago
- Melhor cantora?
- Elza Soares
- Pior cantora?
- As atuais
- Uma boa comida?
- Da minha mãe
- Uma péssima comida?
- A requentada
- Um ótimo restaurante?
- O bar do Estadão (SP) às três e quinze da manhã
- Um péssimo restaurante?
- Qualquer um fechado às duas da manhã
- Uísque ou cerveja?
- Vodca
-Um amigo?
-Nenhum
-Um inimigo?
-Nenhum
- Uma mania?
- Acordar assoviando
- Um defeito?
- Não sabê-los
-Ary Costa por Ary Costa?
- Um ateu que acredita que vai pro céu.


Março/2011

Receita


Ingredientes

Carne
Uma dose de conversa
Dois corações
Um par de olhares
Pimenta
Sal a gosto
Beijo na boca
Um sofá
Um aquário
Pouca luz
Vinho para regar.

Modo de fazer

Comece pela boa conversa enquanto a carne vai descongelando, vá deixando tudo em fogo bem baixinho. Com calma deixe a pimenta temperar os corações.  Tudo isto perto do aquário, deixando apenas sua luz acesa. Quando estiver tudo temperado junte os dois corações e para dar um paladar mais gostoso basta uma pitada de beijo na boca e outra de sal em um sofá bem aconchegante enquanto o par de olhares se encontra. Aumente gradativamente o fogo sem deixar que os corações nem a carne passem do ponto. Regue tudo com o vinho.
        P.S. Depois pode apagar a luz do aquário.


22/11/09

Dar

       O dar, verbo que pode ser usado de tantas formas que aqui pensando, resolvi enumerar algumas que já ouvi por esse mundo de meu Deus.

Por exemplo:

O “Dei” convicto = Dei e daí?
O explicativo = Dei, mas quem não dá?
O proprietário = Dei porque é meu.
O amnésico = Dei? Não lembro!
O esquecido = Dei?
O temporal (1)= Devia ter dado.
O temporal (2) = Devia ter dado a mais tempo.
O absoluto = Dei, e dei muito!
Quantitativo = Quero dar mais.
O esnobe = Tá achando que eu vou te dar?
O falso = Eu nem imaginava que ia dar pra ele.
O esperançoso =Ainda vou dar pra ele.
O arrependido (1) = se soubesse, nem tinha dado.
O arrependido (2) = Nunca mais eu dou, juro.
O arrependido (3)= Ah, se tivesse dado...
O saudoso = Que vontade de dar de novo.
O futurista = Ainda vou dar pra ele.
O interrogativo(1) = Por quê será que eu dei?
O interrogativo(2)=Por quê não dei?
O confessável= Prum homem desse quem não dava?
O saudosista = Como era bom dar para ele!
O satisfeito = Deu-me uma, deu-me duas, deu-me três!
O exclamativo= Como eu dei!
O virtual= Dei, depois eu troco de nick.
O indeciso= Dou ou não dou?
O convicto (1) = Dou.
O convicto (2) = Não dou, não dou e não dou.
O convicto (3) = Não dou. Nem fodendo!
O convicto (4) = Dei e tá dado.
O quase certo= Vou pensar se dou.
O certo = Talvez eu dê. (Talvez, é praticamente certeza, pode acreditar).
O futurista = Amanhã eu dou.
O interesseiro = Só dou por 200.
O arrependido= Nunca mais eu dou.
O camarada = Pra você eu dou de graça
O suportável = Me paga o táxi depois?
O insuportável = Depois você me leva pra casa?
O preocupante= Posso dormir aqui hoje?
O incentivador = Que tal comprarmos mais umas camisinhas?
O inacreditável (1) Eu não sou disso.
O inacreditável (2) Não sei se devo.
O inacreditável (3) Ta pensando o que de mim?
O inacreditável (4) Aqui é um motel?
O falso = Nunca mais eu dou!

E por aí vão-se dando.
2012

                                       


O idiota

        Fui induzido, ou abduzido - não sei - a prestar atenção em uma conversa entre dois casais eu ocupavam uma mesa ao lado da minha simples cadeira na piscina do clube que frequento categoricamente aos domingos, no verão. Eu acabei por me interessar pela conversa deles não pelo assunto, mas por causa do volume que até lembrava um jogo de truco, se é que me entendem.
        Uma das mulheres falava animadíssima que eles (o casal) haviam comprado uma antena dessas que você paga, depois a antena é sua e aí você tem mais de cento e quarenta canais. Fechei o livro que eu estava lendo enquanto a outra mulher dizia que também tinha comprado e que agora a TV de 60’ parecia um cinema. Apenas as mulheres falavam enquanto os dois maridos combinavam de ir assistir o jogo de futebol no estádio, que é muito melhor do que em qualquer TV. Somente quando o assunto foi “quem havia matado Max” na novela é que eles mantiveram uma conversa a quatro cabeças, cada uma com um palpite diferente. Ajeitei-me na minha espreguiçadeira e passei de leitor a ouvinte. Agora o assunto entre os casais (novamente eles de um lado, elas de outro) duas apostas: eles apostando quem iria ganhar o jogo e elas quem iria ganhar o BBB. A parte do jogo eu até entendi, mas eu nem tenho TV... BBB?
        Eles foram embora, os maridos para irem ao estádio e as mulheres para assistir o programa do GUGU, isso eu ouvi e eu fiquei imaginando assistir, GLOBO, SBT, ou qualquer outra emissora dessas de canal aberto. Ainda bem que não possuo sequer televisão em casa. O máximo que faço é acompanhar notícias pelas emissoras de rádio.

        Ah! Sim, quanto ao meu livro? Voltei a lê-lo: “O idiota” – Dostoiévski -. 


20/12/15

A fresta da porta

        A fresta da porta era nada além de uma nesga vertical por onde eu via do quarto da unidade de terapia intensiva partes de pessoas e pedaços de sons passarem. Risos e gemidos eram siameses, não faziam diferença e olhando para a parede e acima de meus olhos nunca eu sabia se era noite ou dia. Mirando num enorme relógio branco e redondo cujos ponteiros eternamente se arrastavam, eu só sabia que eram cinco ou sete horas, mas nunca se estava amanhecendo ou anoitecendo. Eu me supunha vivo, mas também não tinha certeza disso.
        Eu não sentia dor em lugar algum do meu corpo, aliás, não sentia meu corpo. Eu parecia ser inutilmente um cérebro vivo. As luzes estavam sempre acesas então era sempre dia ou sempre noite como eu resolvesse que deveria ser. Comecei a decorar nomes como “tais miligramas de tal coisa” em volta de mim só os números de uma máquina acesa desfilando linhas verdes umas rápidas, outras nem tanto e pessoas que também me tratavam apenas como uma máquina. Meu coração não era um coração, era um miocárdio e aproveitei para decorar também isto e a me relatar em outras ocasiões aos médicos o que o meu miocárdio estava sentido, às vezes meio acelerado às vezes meio descompassado – o que também aprendi a chamar de sincopado de tanto ouvir o termo 'síncope cardíaca".
        A toda hora alguém colocava coisas na minha boca que eu nunca sabia se era alimento ou remédio, outro enfermeiro passava uma esponja úmida e meio fria no meu corpo e antes me dizia que era hora do banho, até que num dia qualquer, me deram um papel meio rabiscado e me disseram que eu poderia voltar pra casa. Ninguém me cumprimentou e nem me desejaria “saúde” ainda que eu espirrasse. Assim que saí daquela UTI aproveitei para dar uma olhada pela fresta da porta, só que agora pelo lado de fora. Vi que a vida e também a morte dão para serem observadas por uma simples fresta vertical.
2011

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Pecado

Se for pecado o que vou dizer,
Então que seja.
Se for errado o que eu sinto,
Então que seja, mas,
Se for simplesmente amor
Então que seja o melhor
O mais bonito
O mais errôneo amor.

Porém se é Deus o próprio amor
Ele então não me condenará
Esteja eu onde estiver
Ele estenderá sua mão
E me absolverá deste pecado
Que Ele mesmo criou.

Que seja eu o pecador
E se for Deus o meu julgador
Ele não me condenará
Pelo só pecado de lhe amar.





20/04/10

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Aquele que escreve

Quem escreve morre
O que quem escreve é eterno.
Quem escreveu descansa
As palavras perambulam por aí.
Quando escrevemos
Jogamos ao vento as palavras
Quando lemos
Sorvemos o sabor de cada frase
E para que escrevemos?
Sem saber se seremos lidos?
Ou se seremos sabidos?
Sem pretender sermos entendidos,
Então, qual a função de ter escrito?
... Imaginar que alguém irá ler, ou
Supor que será um segredo de quem escreveu
E mantido para sempre consigo?
Escrever ou não escrever, eis a questão.
-Por não se conformar com uma página em branco,
Por precisar de talvez mais uma página,
Uma mais apenas para condensar palavras,
Mas apenas as suficientes para no final
Simplesmente dormir em paz.
Assim é usar a página em branco:
O exercício solitário,
A busca incessante,
A necessidade de trazer à vida as palavras
Que sempre estiveram dentro do escritor
O saber que a existência de quem escreve é finita,
Embora o que por ele é escrito, não.



domingo, 17 de julho de 2016

Não escrevo

Só não escrevo quando ao adormecer, desisto
Só não penso nela quando evito me desesperar
Só não telefono quando creio ser prudente esperar
Só não a procuro quando tenho dúvidas

Em compensação 
Não quero a chave de volta
Não quero que ela me esqueça
(Não vá para o Chile!)

Sou assim, gosto muito dela
Tanto que acho normal o que sinto
Quando ela me telefona
Quando o desespero passa
Quando ela me procura
Quando olho o presente que comprei
E que espera quieto e calmo

Ela é a minha segunda pessoa
O futuro que imita o presente
Aliás, imita os dois presentes
O tempo presente e o presente que comprei
E quando suponho que ela ainda possui a chave
Não de onde eu moro, mas, a chave de mim.
Ela se torna então a minha primeira pessoa.

 02/03/10





quinta-feira, 14 de julho de 2016

Por que?

Por que mentiste para mim? Por que me fizeste crer que tudo seria possível, que tudo seria felicidade, quando na verdade o caminho pelo qual me conduzias era só fruto da mentira que a mim mentiras? Por que me fizeste crer que tudo recomeçaria, o sonho, o amor, a vida e tudo mais, por que? Por que fui confiar em ti, quando deveria ter sido mais atento quanto ao que me oferecias, quando eu deveria não ter me deixado levar pelo que tu me dizias, pelo que me induzias a fazer, tu, tão dentro do meu peito, ditando os meus sentimentos e eu assim, tolamente me deixando flutuar em sentimentos que a mim ditavas e que eu acreditava, eu. O que pretendias de mim, quando eu sem perceber me deixava levar por ti e sentia tão fortemente que tu comandavas todo aquele momento da minha vida? Por que foste fazer isto comigo, me enganando e agora me deixando ver o triste lado do que sempre fora a verdade e que tu não me deixavas ver. Em que momento começaste a mentir para mim? Logo no primeiro instante, no dia seguinte, mentiste até ontem, até hoje, até há pouco, desde quando iniciaste o percurso do que me fizeste crer que era verdade. Mentiste, impiedosamente a mim mentiste, mentiste sem medo de me ferir, de me sangrar mesmo sabendo que a minha morte implicaria a tua também. Morro e comigo morres tu.
...Como pudeste tanto me enganar, logo a mim, coração meu.


10/01/10

Presença

        Abri a porta do apartamento às exatas quatro horas da manhã e já era terça-feira. Olhei para a sala com calma e com saudade. No sofá, as almofadas fora de ordem, em cima da mesa um filme não assistido, a janela que me pediu para que eu reolhasse o jardim, eu não lembrava onde havia deixado os meus óculos, no cinzeiro um papel de bala e na cozinha em cima da pia a cerveja que eu tomara um minuto antes de sair. De volta à sala minha agenda estava fora de lugar e em cima da mesa dormia um papel qualquer escrito “faça de conta que eu não chorei”. Rememorei as horas anteriores à minha saída, fui ao escritório e vi as cadeiras fora dos lugares habituais. Voltei a apagar a luz da sala para ver melhor na penumbra a sua silhueta, para rever no escuro o seu vestido, para no escuro lembrar-me de como é namorar, ficar quietinho abraçado, quase perdendo a hora do compromisso. O aquário estava ali, com os peixes de um lado a outro, não liguei o aparelho de som, permaneci em silêncio ouvindo somente som das palavras que havíamos dito um ao outro. Coisas tão bobas e tão importantes. Foi aí que senti falta de uma coisa. De um brinquedo que lembrava a minha infância, um pião de madeira que não estava mais onde ele ficara por anos e que representava para mim a minha infância, o meu brinquedo, a minha pureza. Foi naquele momento que eu entendi tudo o que aquele brinquedo representava quando eu lhe ofereci e pedi que você o levasse como um presente. Foi a melhor entrega que eu poderia ter feito a ela. A entrega da minha juventude e da pureza do sentimento que estou vivendo. Eu quero ser o seu pião, o seu bicho preferido assim como a música que ainda nem cantamos juntos. A minha casa mudou, muita coisa mudou a partir do momento em que ela se permitiu entrar no meu pequeno universo, cheio de paredes, mas agora sem nenhuma fronteira.
Agora o meu mundo é seu, pode jogar o papel de bala no chão, pode deixar a janela aberta, pode apertar a pasta de dente no meio, pode sair do quarto sem arrumar a cama, pode trocar os talheres de lugar, pode propositadamente esquecer uma peça de roupa aqui, pode levar um livro meu embora sem me avisar, só tenho um pedido. Seja minha namorada pelo tempo que puder ser. O amor é assim mesmo, sempre inédito, já escrevi isto alguma vez não sei quando nem lembro o porquê. Depois eu volto a arrumar a minha casa, ajeitar as minhas coisas, recolocar os talheres no lugar. Por enquanto, fica comigo pra bagunçar a minha vida e  bagunçar o meu mundinho. É bom demais, sabia?

17/11/09


Sinceridade

Do fundo do meu coração eu preferia nunca tê-la conhecido nunca ter passado noites esperando pelo seu telefonema nunca ter imaginado mais do que o beijo não ter ficado com seu perfume andando ao meu lado pela minha casa durante tantas noites sinceramente eu não queria ficar assim dependente da sua presença não queria preparar o almoço para duas pessoas não queria pensar no que seria o que nunca haverá de ser não queria vírgulas nem interrogações entre um encontro e outro queria permitir-lhe asas para que você voasse voltasse e que viesse vez em quando pousar nos meus braços rirmos junto minha voz antes da sua gargalhada fora de hora sua presença aqui de repente tudo mas pontos finais existem sempre nos finais dos textos sou prisioneiro meu desde que permiti que você entrasse na minha vida e desarrumasse tudo desde meus livros até as minhas convicções enchendo tudo de reticências parágrafos deixando páginas em branco e pior sem escrever fim ponto estou escrevendo sem virgulas e sem pontuação por um motivo porque não respiro enquanto escrevo não preciso de pontuação nem de nada possivelmente precise apenas esquecer se você quiser corrigir o que eu escrevi pontue coloque as virgulas e ponha um ponto final eu não o farei apesar de saber onde o ponto final deve ser colocado agora vou voltar ao meu trabalho e saiba ainda que você não acredite grande parte do que eu tenho transformado em som tem um nome que ainda nem sei direito qual é ainda não sei qual é o nome da música que eu tenho tocado aproveite para reler e colocar a pontuação que eu não usei caso virgula caso exclamação caso reticências caso deixe como está assim mesmo escrito palavra pós palavra caso me fosse possível eu não reviveria aquela noite quando acabou a gasolina do seu carro bem em frente à minha casa mas que foi bom aquilo tudo ah isso foi


São Paulo, 01/11/09

Estou aqui

        Estou aqui pensando se devo ou não escrever, se devo escrever sobre o quê, se o que tenho a escrever será lido por alguém, se alguém se importaria com o que eu escreveria, caso eu viesse a escrever agora. Meu coração parece que entrou em um triturador de emoções, em alguma máquina que fê-lo ficar entre massacrado e moído, entre perdido e triste, não sei, mas percebo que meu coração sofre, titubeia ao bater desordenadamente como se não tivesse vontade de bater [nem força]. Entre o coração que nem sei se bate e o que estou sentindo, acabo por não conseguir redigir sequer uma linha que se aproveite para ser lida, tal a confusão na qual estou mergulhado. Narrador da minha própria angústia, sentidor da minha própria lança, se eu quisesse correr não saberia para onde, se eu quisesse gritar não saberia em qual direção, se eu quisesse encontrá-la não saberia o caminho, tudo isto faz de mim um amador-amador à procura do seu amor, um peregrino em busca da sua meta, uma palavra em busca da poesia, um mendigo à espera da esmola, um pecador em busca da salvação. Caso eu conseguisse escrever algo, uma linha sequer, eu poderia talvez me livrar da sua ausência que crucial e antagonicamente é a única coisa presente agora.



09/01/10

Obrigado

Obrigado por ter transformado o meu dia em música desde quando acordei hoje. Foi em você que eu bebi a inspiração para escrever esta música que coloquei no papel e pedi ao escritor que agradecesse com palavras o que o músico não sabe escrever.

- E assim escreveu o escritor -

“Olhar para um papel que há pouco estava em branco e agora está cheio de significados, cheio de sinais, enigmas não decifráveis por quem o observa, mas que quem observa gosta de olhar e imaginar o que sejam. Como seria o som daquilo que está no papel? Seria uma melodia triste, alegre, pra onde levaria quem olha para o papel e onde estaria o som que o artista colocou no papel e sequer é som. Será que seria uma valsa, será que seria pra ouvir com a luz apagada, como saber do som que agora está cravado no papel e na cabeça do artista? E a musa, quem terá sido a mulher que despertou o artista e fê-lo escrever no papel a música que não era dele, era dela. Será que a música se parece com a musa? Será que a musa da música é o que espera o artista? Será que a musa se parece com uma valsa? Será que ela apareceria na janela pra ouvir a música?

Há música no papel porque há musa. A musa no seu papel de musa nem imagina que o artista a pensa, a transforma em música e se transforma nela, se entregando ao papel no qual escreve e no papel de quem se rende até que a musa olhe para o papel e suponha uma valsa e qual seja o seu papel na música que ela sequer ouve, quem sabe dance abraçada ao papel em que abraçada imagina a sua própria música, que nem precisa ser a música do papel.

Dança a musa sua música
Faz o seu papel abraçando o papel
Apaga a luz, gira, dança sua valsa.
Depois de tanto tempo ela se ama
E gira ainda mais sua valsa, a musa.
Ainda que só rabiscada num papel,
a música imaginada é a própria musa.”

(Assim escreveu o escritor)
São Paulo, 05/11/09


Diariamente

         
Escrever diariamente para ela vai muito além do exercício da escrita, torna a espera mais suportável e faz encurtar o tempo que nos separa. As palavras acabam por me aproximar dela e suponho que também aproximem-na de mim, como se cada linha escrita fosse um dia a menos de espera. Não é assim muito fácil ficar sem notícias dela e pior ainda não poder ficar ao seu lado acarinhando-a, lhe fazendo companhia, enfim, cuidando da minha menina. Queria estar por perto durante este momento em vez de estar a escrever, mas sei da impossibilidade disto, não só pela distância, mas por motivos outros que bem sabemos quais são. Prometo continuar com o meu propósito de não me afastar dela em pensamento, porque penso que seja uma, senão a única maneira de mostrar-lhe o profundo sentimento que me une a ela e também porque não quero de forma alguma que ela me esqueça, pois não faço outra coisa a não ser rezar para ver novamente o seu sorriso tão lindo e seus olhos tão cativantes. Bem, Não quero me estender muito para não me tornar inoportuno.
Temos tanto ainda a aproveitar juntos, que qualquer tempo que eu tenha que esperar por ela será só um compasso de espera, nunca o final da nossa melodia.
  

29/01/10

Apaixonite


Eu gostaria de não sentir a necessidade de algumas linhas de palavras escritas para ela todos os dias, mas é assim que o meu coração me pede, me obriga, todos os dias, todas as noites, todas as madrugadas, todos os amanheceres.
 Está virando rotina e não sei se escrever resolve, não, ainda, aprendi direito a sentir sua falta, não aprendi a não a querer aqui em minha casa diariamente, mas algo há de certo em tudo isto. Sua ausência cada vez é maior apesar do tempo pouco em que não nos vemos que não nos tocamos, que não nos beijamos. Sou assim, entregue às paixões e ela me conseguiu deixar assim apaixonado como se eu houvesse adquirido uma doença, uma “apaixonite” aguda da qual não há remédio a não ser a sua presença, e tomara que não haja cura. Será que existe apaixonite? Se não existir, eu invento e fica por assim dizer: Sofro de apaixonite, e quem não entender o que significa isto, é por um motivo simples: Porque nunca esteve frente a frente com uma mulher tão apaixonante quanto ela.


17/12/09

Eu não me lembrava

Eu não me lembrava de o quanto era bom fechar a porta e a cortina até quando o dia virava quase noite e ela estava disposta a sorrir pra mim e o seu sorriso iluminava os meus olhos e a minha sala e a minha casa. Não era preciso nem janela nem porta para que eu me sentisse todo feliz, todo iluminado por ela. Ela me iluminava e eu gostava de ser iluminado pela sua luz, pelo seu sorriso, sorrindo só pra mim e pra mais ninguém. Não havia mais porta nem saída, era a presença definitiva. Só que a gente não sabia nem precisava saber. Tinha que ser assim, de uma vez para sempre. Você me deixou sem saída, mas você também não a tinha. Não havia mais como escaparmos um do outro.
Coincidências talvez sejam isto: Tudo o que faz com que o carro enguice bem em frente ao destino da gente.


20/04/10

Irremediavelmente

Inevitavelmente, irremediavelmente sou obrigado a admitir que estou apaixonado completamente por ela e o pior não é nem isto, mas, que estou decidido a me casar com ela, aquela moça. Agora vai ser um jogo de rato e gata, onde no final o rato será obrigado a se render ao sentimento que a gata [e que gata!!!] com pouco mais de que um olhar plantou no coração do rato. Agora ao rato, refém dos olhos da gata, do seu sorriso, da sua presença, não restam muitas opções, ele sabe que refém é, e que não há mais salvação para isto. Imaginem um rato apaixonado por uma gata. Vai ser tão difícil explicar isto aos outros animais, principalmente aos leões. Talvez a formiguinha que se apaixonou, certa vez, pelo elefante compreenda, ou quem sabe o macaco que amava a girafa e dava um trabalho danado pra ir lá em cima beijá-la na boca também compreenda as dificuldades que têm que ser superadas. Enfim não restam mais muitas palavras que eu conheça para dizer o que quero dizer agora a não ser: Quer se casar comigo? ... "E que venham os leões”.

28 de dezembro de 2009.


Perceber

Acabo de perceber que o dia está amanhecendo, e como é bonito o som do amanhecer, a primavera, pássaros que nunca os vejo, mas que ouço a melodia que eles me trazem. A vida renovada ao amanhecer. Da janela vejo um azul misturado com um rosa, misturado com um cinza que me dá a certeza de ser uma paisagem pintada por alguém que acho que seja um deus. E a cada minuto tudo isto muda, tudo se transforma. Entre aquela hora há pouco, e agora já mudou tudo. Os rabiscos de rosa já são outros, o cinza já não está mais tão cinza, dá pra ver um vermelho que suponho seja o sol se esforçando para sair de dentro do alaranjado, só os pássaros cantam no mesmo tom. Que bobagem, de que serve isto, afinal, todo dia é assim, sou eu quem não nota. Espera um pouco, porque será que eu estou dando tanta importância a algo que acontece todo dia? Engraçado, já mudou tudo de novo, da minha janela agora o que parecia céu agora parece mar, o azul está se movendo, as nuvens estão se organizando e tomando formas engraçadas, mas porque será que só hoje eu estou percebendo isto? O sol agora está despontando tem gente saindo pra trabalhar, eu estou escrevendo, os passarinhos continuam cantando enquanto eu respiro um ar novinho em folha. Será que tudo isto é poesia?


07/11/09

Metades

Metade de mim é feliz
Metade de mim é incompleta
Metade de mim é música
Metade de mim é poesia
Metade de mim não se importa
Outra metade se aflige

Metade de mim sorri
Enquanto a outra metade sofre
Se uma metade é inquieta
A outra metade é calada
Enquanto uma metade brinca
A outra metade pensa

Metade de mim sonha
Enquanto a outra metade dorme
Uma metade é pouco
Uma metade me basta
Uma metade me mente
Enquanto a outra me condena
Metade minha é faca
Metade minha é carne.

Se uma fica, a outra foge.
Se uma ruge, a outra cala.
Uma fica quando a outra foge
Uma procura enquanto a outra repousa
Uma transpira enquanto a outra inspira
Metade caminha, metade espera.
  
Metade de mim é completa
Metade de mim é só um pedaço
Que enquanto vive,
Procura dentro de mim, às cegas
A minha própria outra minha metade.



09/11/09

O gosto

Até que, então, a rima por mais elaborada
Ficou difusa.
Não vejo sequer o desejo que era perto.
Era tão bom o cheiro, o gosto, o toque, tudo era bom.
Pena, não se por causa minha ou por causa da musa
No quarto, a ausência.

O gosto do gosto, que eu sentia quando ela me beijava.
O gesto meio sutil, quase inocente,
De mover o pescoço, fechar os olhos,
Falar palavras que eu não sei traduzir.
Tudo isso é bom na lembrança.

Ela me apertava, me agarrava
E eu a supunha minha, completa,
Completamente minha e ela se punha
Completamente assim,
Completamente nua, se dizendo minha,
Mas sendo dela mesma.

Ajeito-me bem pra lembrar-me  do jeito que ela tinha
Ajeito-me melhor ainda
Pra lembrar dela em mim por cima, mas,
Ela não vem mais.

Lembro-me dela completa
Olhos, risos, olhos que pareciam meus
-Mas não eram- Eram só dela.

Ela só me emprestou seus olhos,
Seu sorriso, sua boca
Só me emprestou o seu cheiro

Pelo menos aconteceu

E eu me aninho no sofá
Abro um vinho sei lá por que
Só pra lembrar dela
(Dela que se-me-emprestou e que a si retornou)


05/03/10

Seria sonho

        Seria sonho o que estou vivendo supostamente acordado?
Cheguei mesmo à minha casa e você estava aqui dormindo, linda, parecendo que sorria à minha chegada? Abro e reabro a porta que nos separa para me certificar de que não é um sonho e quase me convenço de que não é mesmo. Você está aqui à minha espera, dormindo na minha casa. Você é tão bonita mesmo dormindo. Se os seus olhos são algo muito belo quando me olham, o seu semblante quando dormindo é de uma pureza mais bonita ainda. Acho que não estou sonhando, mas só vou saber amanhã quando eu ler este texto que escrevo para mim mesmo. Só quando eu ler, então saberei se não foi um sonho, saberei se escrevi mesmo estas palavras e que você acordou mesmo comigo.
        Será que eu estou sonhando que estou escrevendo dentro de um sonho sobre um sonho que estou tendo? Será que você não está aqui? Será que não são seis horas da manhã de um sábado? Será? E se eu estiver apenas sonhando que estou escrevendo sobre eu chegar à minha casa e encontrá-la aqui, se eu estiver sonhando que estou escrevendo sobre o sonho que estou sonhando e que no qual eu escrevo sobre o sonhar com você, e se o sonho acabar? E se ao acordar eu não vir as coisas que você deixou fora do lugar, se eu não tiver que arrumar toda a bagunça que no sonho você fez, se eu não tiver que arrumar o lugar onde você dormiu e saiu às pressas por algum motivo que nem deu tempo de  me explicar? Na minha verdade ou no meu sonho, não sei, estou escrevendo sem fazer barulho para que você não acorde ou, quem sabe, para que eu mesmo não acorde do sonho de escrever dentro do sonho. Acho que estou dormindo, sinceramente penso que estou apenas sonhando que você está dormindo aqui perto de mim e que o seu sono é bonito, tanto que me faz escrever enquanto quem na verdade dorme sou eu.
Devo estar dormindo e sonhando que você está aqui ao meu lado dormindo. E se você estiver sonhando comigo? Sonhando que eu estou escrevendo enquanto você dorme? Será que você sonha que eu estou escrevendo? Seriam estas palavras do sonho que você está sonhando? Seria eu quem está no seu sonho agora? E se você acordar e me contar que sonhou que eu estava escrevendo e se estas palavras pertencerem ao sonho seu? E se eu não estiver escrevendo nada além do que agora você sonha que eu esteja escrevendo? E se tudo isto estiver acontecendo apenas no sonho seu, se eu não estiver escrevendo para você agora, e se eu estiver agora dormindo junto a você sonhando que escrevo tudo isto enquanto você sonha que eu estou escrevendo o que não tenho certeza se escrevo ou sonho que escrevo, ou até quem sonha que eu escrevo é você, enquanto que na verdade estamos dormindo abraçados? Será que estamos dormindo juntos, você sonhando que eu escrevo e eu sonhando o mesmo sonho? Será que amanhã estas palavras existirão mesmo ou teriam sido apenas um sonho de quem escreveu em sonho abraçado o que sonhou que escreveria caso estivesse acordado enquanto você dormia aqui ao meu lado, linda e quase nua. 

São Paulo, 12/12/09




Nem sempre

Nem sempre fazemos o que queremos, nem sempre amamos a quem queremos, somos escolhidos, enquanto gostaríamos de escolher, amamos ainda que sem sermos amados, somos escolhidos à revelia, às vezes. Não escolhemos sequer nascer, somos escolhidos para tal, e ao nascer, inevitavelmente somos escolhidos para morrer. E assim seguem a vida, os amores, os nasceres e os morreres, sem que tenhamos algum controle sobre isto tudo. Hoje, por exemplo, estou bem sem escolha sobre o que acontecerá na minha vida a partir de amanhã, mas apenas depois de amanhã, ou depois de depois de amanhã, ou no mês que vem, quem sabe nunca eu venha a concluir este texto, afinal, nem sempre fazemos o que queremos ainda que seja uma coisa simples rabiscar palavras numa uma folha em branco, esperando nem sempre ser lido, se lido, nem sempre compreendido, se compreendido, nem sempre feliz.  

São Paulo, 30/12/09.

Frio

Definir o indefinível é como tentar explicar o inexplicável. Sinto o que não deveria sentir, mas penso no quanto é bom ter vivido tudo isto, ter sentido todos os cheiros, ter tocado todo o corpo, ter beijado a boca, tocado a língua, dormido junto, enfim, ter-me envolvido tanto na coberta, quanto ter envolvido a mulher em baixo da coberta.  Mas o frio de agora é diferente. É o frio que não vem do frio, vem dela, da mulher que houvera eu embaixo da coberta. A coberta aquece não meu corpo, mas aquece a minha lembrança, essa que está no cheiro que vem da coberta que vem dela. O frio que vem por baixo da coberta é o frio da ausência, frio de querência, frio que de tão frio arde e arde como que quente fosse, ou seja, é um frio de dentro pra fora, frio não do frio, mas o frio de quem me faz sentir frio. Frio não é nada quando o coração está quente, mas quando o coração está frio não há calor que o aqueça e este é o frio pior, o da ausência, o frio da alma. Aqui faz frio, aqui dentro de mim. Não é frio de coberta, é frio de falta de beijo, não é frio de falta de calor, é frio de falta de olhar, de falta de receber e dar, frio de abraço, frio de troca, frio de que quando a lágrima escorre, cai no chão frio, frio até que a própria lágrima escorra e ao escorrer sinta-se também fria.
Aqui é inverno não fora, mas inverno agora muito dentro de mim.

14/06/10


Permitir-nos


Permitir-nos liberdade e confiança ao mesmo tempo é algo um tanto aflitivo, são duas coisas que não combinam direito.  Escrever às seis da manhã não é algo agradável, a não ser que seja extremamente necessário e só é extremamente necessário se a pena valer. Somadas estas coisas, escrever para você agora está sendo bom, necessário e um bom exercício de atenção e de carinho. Você dorme, provavelmente enquanto que os meus horários estão avessos aos seus, mas nada impede que eu esteja com você em palavras que apesar de não serem ditas podem ser escritas. Durma bem, acorde bem, este é o meu jeito desajeitado de lhe acarinhar, de me sentir próximo a você, sei lá, é meu jeito desarrumado de fazer as coisas que eu gosto de fazer. Não tenho muito jeito pra fazer algumas coisas. Nem sempre a omelete sai do jeito que eu queria nem o arroz fica no ponto certo, mas eu faço e gosto de fazer. Eu fico rindo quando as coisas não dão certo. Dizem os filósofos, não sei se é verdade, que as pessoas que conseguem rir de si mesmas são mais felizes. Estou rindo agora, por bobagens, que vivi hoje e por bobagens que não vivi. Como não ter conseguido atender às suas chamadas, mas tudo tem que acontecer, até o que não acontece tem que não acontecer, tem que existir. A ausência acontece enquanto a presença fica gravada num gravador telefônico. Engraçado supor que tudo o que não aconteceu, de alguma forma, aconteceu. A gente só não estava lá...


11/11/09