Tem
gente que fala sozinho ou sozinha, não sei.
Quem escreve, sempre escreve sozinho ou
sozinha, sei.
Escrevo sozinho, sempre em silêncio.
A solidão me remete à necessária paz
para escrever.
A ausência de algumas coisas é o que
consegue remeter-me à presença de outras
Não só de coisas: De lugares, pessoas,
cheiros e por aí vai.
Falo sozinho sim, não escondo isso de
ninguém
Falo palavras que ninguém entende
Escrevo palavras que não preciso que que
sejam lidas
Assovio como passarinho, por
necessidade,
É a minha vocação, é o meu jeito.
Canto caminhando pela calçada, quando
sinto vontade
Paro em frente a uma inauguração de um
supermercado
Com a mesma facilidade
Com que me ajoelho em frente a um
mendigo
Só pra me ajoelhar mesmo
E não lhe dou esmola, mas lho abraço
Sempre acho que ele não se lembraria
De uma esmola a mais
Mas suponho que ele se lembrará do
abraço
(Era inverno quando escrevi isso.)
Minhas palavras são imprevisíveis,
Seja eu falando sozinho ou cantando
sozinho
Mas para um abraço é necessária outra
pessoa
Não tenho na minha memória
Quem foi o mendigo que eu abracei
Mas ele saberá sempre quem eu sou
Mesmo que eu nunca lhe dê nenhuma moeda.
E ele quererá que eu vá em paz,
Ambos falando sozinhos.
Junho/2015
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