quinta-feira, 14 de julho de 2016

O gosto

Até que, então, a rima por mais elaborada
Ficou difusa.
Não vejo sequer o desejo que era perto.
Era tão bom o cheiro, o gosto, o toque, tudo era bom.
Pena, não se por causa minha ou por causa da musa
No quarto, a ausência.

O gosto do gosto, que eu sentia quando ela me beijava.
O gesto meio sutil, quase inocente,
De mover o pescoço, fechar os olhos,
Falar palavras que eu não sei traduzir.
Tudo isso é bom na lembrança.

Ela me apertava, me agarrava
E eu a supunha minha, completa,
Completamente minha e ela se punha
Completamente assim,
Completamente nua, se dizendo minha,
Mas sendo dela mesma.

Ajeito-me bem pra lembrar-me  do jeito que ela tinha
Ajeito-me melhor ainda
Pra lembrar dela em mim por cima, mas,
Ela não vem mais.

Lembro-me dela completa
Olhos, risos, olhos que pareciam meus
-Mas não eram- Eram só dela.

Ela só me emprestou seus olhos,
Seu sorriso, sua boca
Só me emprestou o seu cheiro

Pelo menos aconteceu

E eu me aninho no sofá
Abro um vinho sei lá por que
Só pra lembrar dela
(Dela que se-me-emprestou e que a si retornou)


05/03/10

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