-Detinha! Acorda que já “enclareceu”!!!
Era assim que meu neto, Gabriel, avisava
tia Beth que já é outro dia e sempre com abraço e um beijo orgulhava tia Beth. Detinha, eu te amo muito. É assim que
ele a subornava durante o resto do dia.
Gabriel manda e a tia Beth obedece sem
reclamar.
Tia Beth ainda dorme sentada ao lado de
Gabriel até que o sono dele seja forte suficiente para que ela ao acordar de
madrugada pegue-o no colo e o leve para cama, então depois ela fica num sono de
vigília ao lado de seu sono profundo.
Gabriel inventou a “Detinha”. Transformou
o nome da tia Beth do jeito que bem lhe aprouve e ficou por isso mesmo. Tia Beth
transformou-se em Detinha para a maior parte da família.
Eu ensinei ao Gabriel a tomar bênção ao
vovô e falar que as coisas boas ou agradáveis são “muito excelentes”.
Detinha está para completar setenta
anos. Alguém acha que eu vou brigar com ela porque ela está deseducando o meu
neto?
Ela é mais mãe dele do que a mãe dele.
Detinha me criou, quando ainda não era Detinha, criou minhas filhas quando
ainda não era Detinha e agora está criando meus netos. Quase setenta anos para
conseguir ser Detinha.
Detinha me liga para avisar que fez
aquele feijão que eu gosto. É na casa da Detinha que o amigo secreto resiste e
une a família toda nos finais de ano. No dia das mães a gente almoça na casa da
Detinha. Se alguém tá doente, Detinha faz sopa e leva pra casa da gente.
Detinha nunca teve seus próprios filhos.
Tem sim um universo de filhos e de afilhados que ela construiu desde quando o dia ainda nem
havia “enclarecido”.
2014
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