sábado, 23 de julho de 2016

Detinha

-Detinha! Acorda que já “enclareceu”!!!
Era assim que meu neto, Gabriel, avisava tia Beth que já é outro dia e sempre com abraço e um beijo orgulhava tia Beth. Detinha, eu te amo muito. É assim que ele a subornava durante o resto do dia.
       Gabriel manda e a tia Beth obedece sem reclamar.
Tia Beth ainda dorme sentada ao lado de Gabriel até que o sono dele seja forte suficiente para que ela ao acordar de madrugada pegue-o no colo e o leve para cama, então depois ela fica num sono de vigília ao lado de seu sono profundo.
Gabriel inventou a “Detinha”. Transformou o nome da tia Beth do jeito que bem lhe aprouve e ficou por isso mesmo. Tia Beth transformou-se em Detinha para a maior parte da família.
Eu ensinei ao Gabriel a tomar bênção ao vovô e falar que as coisas boas ou agradáveis são “muito excelentes”.
        Detinha está para completar setenta anos. Alguém acha que eu vou brigar com ela porque ela está deseducando o meu neto?
Ela é mais mãe dele do que a mãe dele. Detinha me criou, quando ainda não era Detinha, criou minhas filhas quando ainda não era Detinha e agora está criando meus netos. Quase setenta anos para conseguir ser Detinha. 
        Detinha me liga para avisar que fez aquele feijão que eu gosto. É na casa da Detinha que o amigo secreto resiste e une a família toda nos finais de ano. No dia das mães a gente almoça na casa da Detinha. Se alguém tá doente, Detinha faz sopa e leva pra casa da gente.
        Detinha nunca teve seus próprios filhos. Tem sim um universo de filhos e de afilhados  que ela construiu desde quando o dia ainda nem havia “enclarecido”.

2014

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