Não
sinto saudade de nada
Sinto
sim, a falta de muita coisa
Não
sinto saudade da minha infância
Sinto
falta da minha juventude
Não
sinto saudade de lugares
Sinto
falta de cheiro de chuva
Era
bom, era boa a chuva
Quando
eu brincava de olhar a chuva
Que
caía através da janela
E
eu queria que ela me molhasse.
Uma
vez, quando adulto, saí na chuva
Não
por nada, só para ser criança novamente
E
saber que o que eu sonhava existia
Mas
não tenho saudade nem disto.
Sinto
sim, falta da chuva
Mesmo
que seja só para vê-la
Através
da janela
Enquanto
tomo uma taça de vinho
Tenho,
hoje, mais expectativas do que saudades
Talvez
amanhã chova
Se
meu neto estiver aqui por perto
Vou
pegá-lo pela mão para fugirmos descalços
De
encontro à chuva
Um
dia ele irá lembrar-se disto
E
quem sabe ele escreverá este mesmo texto
Com
outras palavras, com outras lembranças
Não
admitindo a saudade
Nem
da chuva nem de mim.
2014
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