domingo, 3 de julho de 2016

Não sinto saudade

Não sinto saudade de nada
Sinto sim, a falta de muita coisa
Não sinto saudade da minha infância
Sinto falta da minha juventude
Não sinto saudade de lugares
Sinto falta de cheiro de chuva
Era bom, era boa a chuva
Quando eu brincava de olhar a chuva
Que caía através da janela
E eu queria que ela me molhasse.
Uma vez, quando adulto, saí na chuva
Não por nada, só para ser criança novamente
E saber que o que eu sonhava existia
Mas não tenho saudade nem disto.
Sinto sim, falta da chuva
Mesmo que seja só para vê-la
Através da janela
Enquanto tomo uma taça de vinho
Tenho, hoje, mais expectativas do que saudades
Talvez amanhã chova
Se meu neto estiver aqui por perto
Vou pegá-lo pela mão para fugirmos descalços
De encontro à chuva
Um dia ele irá lembrar-se disto
E quem sabe ele escreverá este mesmo texto
Com outras palavras, com outras lembranças
Não admitindo a saudade
Nem da chuva nem de mim.

2014 

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