domingo, 3 de julho de 2016

Mira Ira

             

Então éramos um povo
Então éramos indígenas
Então éramos puros
Então éramos floresta
Então éramos “povo de mel”.

Então mudamos
Então perdemos o mel
Então deixamos de ser puros
Então deixamos de ser floresta
Então nos perdemos
Então chegamos onde estamos.

E agora José?
No meio do caminho não há mais pedra
Não há mais peroba do campo
O Brazil já não conhece o Brasil
Ipanema virou “Ipanima”
Melhor, talvez, seria ser filho da outra.

O Brasil agora é assim:
“Assim você me mata”
E me mata mesmo
De vergonha

Eu queria morrer de amor pelo meu país
Eu queria ser “Mira Ira”

Será que ninguém nota?
Será que todos se contentam?
Será que ninguém se incomoda?
Será que inteligência é usar a bunda?

Então tá certo mesmo
“Assim você me mata”
Evoluímos a este ponto?
“Assim você me mata”
De tristeza

Aqui é o meu país
De Iaras, de bem-te-vis
De Franciscos, de Jobins
De Oscares de Almeida

O Brasil é moreno
Quando não de cor, de sol.
O Brasil é mulato
Quando não de pais, de avôs.
O Brasil é negro
Quando não de pele, de sangue.
Aí sim somos Mira Ira.

Mas já que “Assim você me mata”

Ó Brasil,
 “Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então
Serei feliz,
Bem feliz”.


Brasil, abril / 2012


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