Definir o indefinível é como tentar explicar o inexplicável.
Sinto o que não deveria sentir, mas penso no quanto é bom ter vivido tudo isto,
ter sentido todos os cheiros, ter tocado todo o corpo, ter beijado a boca,
tocado a língua, dormido junto, enfim, ter-me envolvido tanto na coberta,
quanto ter envolvido a mulher em baixo da coberta. Mas o frio de agora é diferente. É o frio que
não vem do frio, vem dela, da mulher que houvera eu embaixo da coberta. A
coberta aquece não meu corpo, mas aquece a minha lembrança, essa que está no
cheiro que vem da coberta que vem dela. O frio que vem por baixo da coberta é o
frio da ausência, frio de querência, frio que de tão frio arde e arde como que
quente fosse, ou seja, é um frio de dentro pra fora, frio não do frio, mas o
frio de quem me faz sentir frio. Frio não é nada quando o coração está quente,
mas quando o coração está frio não há calor que o aqueça e este é o frio pior,
o da ausência, o frio da alma. Aqui faz frio, aqui dentro de mim. Não é frio de
coberta, é frio de falta de beijo, não é frio de falta de calor, é frio de falta de
olhar, de falta de receber e dar, frio de abraço, frio de troca, frio de que
quando a lágrima escorre, cai no chão frio, frio até que a própria lágrima escorra
e ao escorrer sinta-se também fria.
Aqui é inverno não fora, mas inverno agora muito dentro
de mim.
14/06/10
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