quinta-feira, 14 de julho de 2016

Frio

Definir o indefinível é como tentar explicar o inexplicável. Sinto o que não deveria sentir, mas penso no quanto é bom ter vivido tudo isto, ter sentido todos os cheiros, ter tocado todo o corpo, ter beijado a boca, tocado a língua, dormido junto, enfim, ter-me envolvido tanto na coberta, quanto ter envolvido a mulher em baixo da coberta.  Mas o frio de agora é diferente. É o frio que não vem do frio, vem dela, da mulher que houvera eu embaixo da coberta. A coberta aquece não meu corpo, mas aquece a minha lembrança, essa que está no cheiro que vem da coberta que vem dela. O frio que vem por baixo da coberta é o frio da ausência, frio de querência, frio que de tão frio arde e arde como que quente fosse, ou seja, é um frio de dentro pra fora, frio não do frio, mas o frio de quem me faz sentir frio. Frio não é nada quando o coração está quente, mas quando o coração está frio não há calor que o aqueça e este é o frio pior, o da ausência, o frio da alma. Aqui faz frio, aqui dentro de mim. Não é frio de coberta, é frio de falta de beijo, não é frio de falta de calor, é frio de falta de olhar, de falta de receber e dar, frio de abraço, frio de troca, frio de que quando a lágrima escorre, cai no chão frio, frio até que a própria lágrima escorra e ao escorrer sinta-se também fria.
Aqui é inverno não fora, mas inverno agora muito dentro de mim.

14/06/10


Nenhum comentário:

Postar um comentário