segunda-feira, 4 de julho de 2016

Outonos

Por que nunca li nada sobre os outonos?
Já li sobre os invernos quando os corações estão frios, as pessoas então contidas em si por baixo de casacos, dentro de si mesmas, amarradas, em roupas, chapéus e luvas. Já li sobre o sol do verão que deixa o mundo mais feliz, as pessoas mais divertidas e mais menos com os tais casacos e sem luvas, mais menos despudoradas. Já li primaveras, já li poesias e amores que nascem com elas.

E os outonos, não servem para nada?
Você já leu algo sobre os outonos? Eu acho que já ouvi músicas sobre outonos como, por exemplo, “autumn leaves”. Sobre as folhas de outono caindo após o verão, mas isso é em outro país.
Outonos também são românticos, outonos também são sensíveis, outonos não se importam por não serem notados. Outonos são discretos, outonos não são calor nem frio. Outonos são apenas o que são entre verão e inverno. São generosos, são calmos, deixam o céu azul-prateado e fazem as folhas chorarem para irrigarem a terra com calma até o próximo e inevitável ciclo da natureza. Outonos têm um cheiro de apenas outonos e se conformam com isto.
 Outonos não sentem ciúme nem possuem vontade de ser outra estação. Ficam ali tecendo sua existência com fios de vento que virá e depois fazem este vento que foi tecido assoviar sua melhor sinfonia.
Outonos são particulares, vivem sob o respeito do inverno que só chega depois que ele vai embora.
Outonos são prudentes, não são de falar muito, não são de nada exagerado. Gostam de ficar assim, meio escondidos fazendo seu papel durante alguns meses, mas, todo ano voltam sem alarde.
Outonos são tão sutis que nem fazem questão de poetas, nem de escritores, fazem questão apenas de existirem.

Eu também não faço questão de ser lido. Deixo as palavras caírem aqui na página como folhas na terra. Ler-me é apenas regar as folhas que caem no papel para que elas estejam aqui no próximo outono, outono que sou.


Outono/2014

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