Trinta e dois quilômetros são muitos para quem tem
pressa, mas para quem sabe aonde quer chegar, dá pra ir de pé. Trinta e dois
quilômetros são inacessíveis, para quem só vê a montanha, mas para quem está
além dela, o riacho é logo ali, trinta e dois, por que não trinta e um, por que
não trinta, porque a construção da estrada se faz a cada quilômetro, cada
metro. Se formos um pouco atentos, veremos os centímetros da estrada dos tais
quilômetros, observaremos uma folha que está lá em cima de uma árvore que
talvez tenhamos que derrubar para construir a estrada, mas também, deixaremos
um espaço para a chuva passar pelo lado da estrada sem que a alague. Todos nós construímos
uma estrada pela qual passa um monte de gente. Gente que a gente nunca vai
pensar que existe, gente que passa pela estrada que a gente constrói e não sabe
pra onde vai, gente que passa pela nossa estrada e que a gente não dá bom dia,
gente que passa descalça, gente que pede informação de para onde ire às vezes a
gente nem se importa, afinal o destino delas não tem a ver com o nosso. A
estrada é nossa e a gente nem sabe por que está construindo a estrada. E vem
gente passando, e os quilômetros vão avançando. Fica-se mais gordo e a estrada fica-(se)
mais larga. A gente nem precisa olhar para a estrada que a gente está construindo,
ela olha pra gente, lá de longe desde o primeiro metro, desde a primeira
decepção e do primeiro acerto. Tanta gente vai ter que passar por aquelas
curvas que estamos construindo, por aquelas subidas e descidas, e a gente nem
vai saber, afinal não é problema nosso, a gente só está construindo a estrada.
A gente não pensa nos amigos que vão passar pela estrada que está sendo construída,
não pensa em meninos que possam vir a ser nossos filhos e que venham a passar
por aquela estrada. Mas a estrada então já existe, e já tem trinta e dois
quilômetros. Já tem atalhos, já tem placas de atenção, já tem um monte de
coisas que ela mesma plantou enquanto a gente só olhou para frente. A estrada
que foi ficando para trás criou vida, criou verdades e se fez à revelia do nosso
projeto.
Imagina agora você querer voltar pela estrada que
criou e não saber como fazer, não saber como é o caminho da volta, não
reconhecer mais aqueles atalhos antigos, não lembrar onde era a parte na qual
você jogava bola, a parte em que você namorava a primeira namorada, não lembrar
onde ficava o quintal da sua estrada. E a estrada ali, olhando pra você, desafiando
você a voltar por ela.
Então você volta pela sua estrada, mas não lembra mais
das curvas. Na primeira você reencontra um amigo a quem esqueceu de dizer
obrigado, depois, um homem cansado que ajudou você, mas que você não ajudou a
ir até o fim da estrada, em seguida, lá na frente, lá no início de tudo você
encontra um velho de cabeça baixa cujo rosto um chapéu lhe esconde a sabedoria
e a quem você pergunta: “O senhor sabe pra onde leva esta estrada?” Ao que o
velho calmamente responde: “Meu filho, esta estrada não leva ninguém a lugar
nenhum, esta estrada apenas traz as pessoas de volta quando para frente não há mais estrada
a ser percorrida”.
11/11/09
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