Sou as vitrines que onde olhas sem
perceberes teu reflexo, te vêem à luz de quem te acompanha e à sombra quem te
persegue. Sou a distância pequena entre o que eu próprio sou e o que pensas que
eu seja a cada rua que distraidamente atravessas, a cada suspiro, a cada
respirar teu. Sou teu ainda que tu não percebas, ainda que tu não saibas, mesmo
que tu não me olhes estou ali por trás do vidro perto de ti, embaçando a tua
visão quando tua respiração faz de mim uma névoa quente e então só eu te vejo. Sou
o que tu esperas que eu seja ainda que eu não pretenda ser nada. Sou o teu
movimento, o teu andar, sou os teus cabelos soltos, o teu batom que precisa de
um retoque porque sou o reflexo de ti quando andas pela rua. Sou porque existo mesmo
que eu só exista quando olhas para mim ou para ti mesma. Assim então me existo
do outro lado da rua quando tu paras para tomar o café ou para que sinalize a
um táxi. Sou nada mais do que isto: O reflexo das vitrines nas quais és
duplicada e triplicada e duplicada novamente pelo espelho. Isto mesmo, eu sou
nada mais do que o reflexo que existe porque tu te olhas vendo a mim dentro de
ti. Sou o teu ir e vir e assim eu existo. As vitrines que te vigiam são apenas
os espelhos nos quais tu te olhas e te vês e me vês supondo seres tu na vitrine.
Ainda que eu não exista, eu sou o teu reflexo em mim que só dependo de tu me
olhares e me deixares te ver com os teus olhos. Sê-los me basta, ainda que eu
sequer exista, se as vitrines te bastam para te veres e me deixar existir nos teus
olhos, então dance, então sorria. Retoque o batom olhando para mim, ajeite o teu
penteado, sorria um sorriso lindo mesmo sem que tu saibas que estas sorrindo
para mim, que não sou nada mais do que tu refletida no espelho, ou para quem por
trás de ti passa pelas ruas e que tu sequer vês.
Jul/11
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