quinta-feira, 14 de julho de 2016

Presença

        Abri a porta do apartamento às exatas quatro horas da manhã e já era terça-feira. Olhei para a sala com calma e com saudade. No sofá, as almofadas fora de ordem, em cima da mesa um filme não assistido, a janela que me pediu para que eu reolhasse o jardim, eu não lembrava onde havia deixado os meus óculos, no cinzeiro um papel de bala e na cozinha em cima da pia a cerveja que eu tomara um minuto antes de sair. De volta à sala minha agenda estava fora de lugar e em cima da mesa dormia um papel qualquer escrito “faça de conta que eu não chorei”. Rememorei as horas anteriores à minha saída, fui ao escritório e vi as cadeiras fora dos lugares habituais. Voltei a apagar a luz da sala para ver melhor na penumbra a sua silhueta, para rever no escuro o seu vestido, para no escuro lembrar-me de como é namorar, ficar quietinho abraçado, quase perdendo a hora do compromisso. O aquário estava ali, com os peixes de um lado a outro, não liguei o aparelho de som, permaneci em silêncio ouvindo somente som das palavras que havíamos dito um ao outro. Coisas tão bobas e tão importantes. Foi aí que senti falta de uma coisa. De um brinquedo que lembrava a minha infância, um pião de madeira que não estava mais onde ele ficara por anos e que representava para mim a minha infância, o meu brinquedo, a minha pureza. Foi naquele momento que eu entendi tudo o que aquele brinquedo representava quando eu lhe ofereci e pedi que você o levasse como um presente. Foi a melhor entrega que eu poderia ter feito a ela. A entrega da minha juventude e da pureza do sentimento que estou vivendo. Eu quero ser o seu pião, o seu bicho preferido assim como a música que ainda nem cantamos juntos. A minha casa mudou, muita coisa mudou a partir do momento em que ela se permitiu entrar no meu pequeno universo, cheio de paredes, mas agora sem nenhuma fronteira.
Agora o meu mundo é seu, pode jogar o papel de bala no chão, pode deixar a janela aberta, pode apertar a pasta de dente no meio, pode sair do quarto sem arrumar a cama, pode trocar os talheres de lugar, pode propositadamente esquecer uma peça de roupa aqui, pode levar um livro meu embora sem me avisar, só tenho um pedido. Seja minha namorada pelo tempo que puder ser. O amor é assim mesmo, sempre inédito, já escrevi isto alguma vez não sei quando nem lembro o porquê. Depois eu volto a arrumar a minha casa, ajeitar as minhas coisas, recolocar os talheres no lugar. Por enquanto, fica comigo pra bagunçar a minha vida e  bagunçar o meu mundinho. É bom demais, sabia?

17/11/09


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