domingo, 3 de julho de 2016

Naquela noite

Naquela noite ele sonhou que enxergava
E viu o verde e viu a rosa
E viu o mar e viu o horizonte.
E viu tudo que se passava além do vidro da janela
Da qual antes só vira com as mãos, o vidro.

O dia agora era diferente da noite
Finalmente, agora ele via as vozes
E as vozes não combinavam
Com os rostos das vozes.

Era estranho ver além do que o braço era capaz de alcançar.
A TV não chamava atenção, nem seu formato
Então ele se contentou com o som do rádio

Depois ele viu a primavera
E viu de onde vinham os sons dos pássaros.
Depois ele viu o que era voar.
Seus olhos demoravam a piscar.

Sua cabeça se virou para a esquerda
Até que seus olhos viram Helena
Cujos cabelos eram de cor diferente
Da que ele via quando não via Helena.

Na verdade nada valia a pena ver
Já que sem olhos ele sempre vira o amor de Helena
Amor que agora seus olhos não viam
Enquanto que cegos, viam Helena.

E ele acordou e fechou novamente os olhos,
E saiu e andou cego e andou mais.
E nunca mais quis dormir.
E queria se livrar do sonho e dos seus olhos
Com medo de que enxergar fosse algo definitivo.

Precisava sentir Helena como sempre a vira.
Cego por Helena.

Por quê a mim mentiam?
- Até vós, olhos -?

Assim, nunca mais ele dormiu.
Só pra que a cegueira lhe permitisse para sempre
Enxergar o seu amor por Helena.



São Paulo, 13/07/09
Para José Saramago
(O ensaio sobre a cegueira)





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