Naquela
noite ele sonhou que enxergava
E
viu o verde e viu a rosa
E
viu o mar e viu o horizonte.
E viu
tudo que se passava além do vidro da janela
Da
qual antes só vira com as mãos, o vidro.
O
dia agora era diferente da noite
Finalmente,
agora ele via as vozes
E
as vozes não combinavam
Com
os rostos das vozes.
Era
estranho ver além do que o braço era capaz de alcançar.
A
TV não chamava atenção, nem seu formato
Então
ele se contentou com o som do rádio
Depois
ele viu a primavera
E
viu de onde vinham os sons dos pássaros.
Depois
ele viu o que era voar.
Seus
olhos demoravam a piscar.
Sua
cabeça se virou para a esquerda
Até
que seus olhos viram Helena
Cujos
cabelos eram de cor diferente
Da
que ele via quando não via Helena.
Na
verdade nada valia a pena ver
Já
que sem olhos ele sempre vira o amor de Helena
Amor
que agora seus olhos não viam
Enquanto
que cegos, viam Helena.
E
ele acordou e fechou novamente os olhos,
E
saiu e andou cego e andou mais.
E
nunca mais quis dormir.
E
queria se livrar do sonho e dos seus olhos
Com
medo de que enxergar fosse algo definitivo.
Precisava
sentir Helena como sempre a vira.
Cego
por Helena.
Por quê a mim mentiam?
- Até vós, olhos -?
Assim,
nunca mais ele dormiu.
Só
pra que a cegueira lhe permitisse para sempre
Enxergar
o seu amor por Helena.
São Paulo, 13/07/09
Para José Saramago
(O ensaio sobre a cegueira)
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