domingo, 3 de julho de 2016

O auto do compadecido

- Seu nome
- Ariano
Adriano?
- Não Ariano. Como signo de Áries.
- Sobrenome
- Suassuna
- Como se escreve?
- Com três esses
- Idade
- Oitenta e poucos, aliás, oitenta e muitos
- O senhor sabe que morreu?
- Morri?
- Morreu
- Morri nada, só estou escrevendo mais uma estória
- Por que acha que não morreu?
-Porque na estória que vou começar a escrever hoje eu não morro nunca mais.
- Como assim?
- Passei trinta e um anos escrevendo um único livro e fiz um trato com Deus: Se ele achasse que meu livro fosse mais herege do que cristão, então que Ele tomasse o lápis da minha mão e não deixasse que eu terminasse o livro. Terminei o livro semana passada, após trinta e um anos e muitos lápis. Então…
-Eu mantive o trato. Você terminou seu livro. Agora chegou aqui
- É… não posso reclamar, trato é trato.
_Então, senhor Suaçuna, digo, Suassuna. Estás pronto para a eternidade?
- Olha Senhor, estou aqui há apenas um dia, não sei se vou gostar, mas, quanto tempo eu tenho para responder-Lhe?
- Você tem a eternidade para pensar
- Então tenho a eternidade para ser feliz e pensar em escrever mais personagens?
- Obviamente
- Então não tenho pressa
- Nem precisa. Vou tomar um café, já volto. Ainda tenho que pensar em outras coisas, ainda há guerra no mundo, ainda há crianças morrendo de fome, ainda há tanta coisa que eu tenho que resolver… Vai refletindo aí, eu volto daqui um minuto.
- Senhor, uma pergunta: Quanto tempo demora um minuto na eternidade?
- Sei lá, eu sou apenas Deus. Não sou adivinho.
- Posso continuar a ser alegre aqui no céu?
- Deve
- Então eu posso ser um anjo?
- Você sempre foi
- Senhor, obrigado
- De nada
- Senhor, eu poderei voltar àquele mundo?
- Você nunca sairá de lá
- Meu Deus, se eu soubesse que morrer era tão fácil, já teria morrido faz tempo.
- Não é assim. Tinha que ficar por lá até ontem
- Por quê?
- Para que terminasse o seu livro, aquele que começou há trinta e um anos, lembra? Acha que eu gostei do título? “O jumento sedutor”. Não, mas seu livre arbítrio fez com que você tivesse usado cada palavra que queria para escrevê-lo até a última linha antes que eu assinasse: FIM.

(Ariano Suassuna morreu ontem (vinte e três de julho de 2014) aos oitenta e sete anos, logo após concluir o livro “O jumento sedutor” depois de trinta e um anos de tê-lo iniciado.)


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