- Seu nome
- Ariano
Adriano?
- Não Ariano. Como signo de
Áries.
- Sobrenome
- Suassuna
- Como se escreve?
- Com três esses
- Idade
- Oitenta e poucos, aliás,
oitenta e muitos
- O senhor sabe que morreu?
- Morri?
- Morreu
- Morri nada, só estou escrevendo
mais uma estória
- Por que acha que não morreu?
-Porque na estória que vou
começar a escrever hoje eu não morro nunca mais.
- Como assim?
- Passei trinta e um anos
escrevendo um único livro e fiz um trato com Deus: Se ele achasse que meu livro
fosse mais herege do que cristão, então que Ele tomasse o lápis da minha mão e
não deixasse que eu terminasse o livro. Terminei o livro semana passada, após
trinta e um anos e muitos lápis. Então…
-Eu mantive o trato. Você
terminou seu livro. Agora chegou aqui
- É… não posso reclamar, trato é
trato.
_Então, senhor Suaçuna, digo,
Suassuna. Estás pronto para a eternidade?
- Olha Senhor, estou aqui há
apenas um dia, não sei se vou gostar, mas, quanto tempo eu tenho para
responder-Lhe?
- Você tem a eternidade para
pensar
- Então tenho a eternidade para
ser feliz e pensar em escrever mais personagens?
- Obviamente
- Então não tenho pressa
- Nem precisa. Vou tomar um café,
já volto. Ainda tenho que pensar em outras coisas, ainda há guerra no mundo,
ainda há crianças morrendo de fome, ainda há tanta coisa que eu tenho que
resolver… Vai refletindo aí, eu volto daqui um minuto.
- Senhor, uma pergunta: Quanto
tempo demora um minuto na eternidade?
- Sei lá, eu sou apenas Deus. Não
sou adivinho.
- Posso continuar a ser alegre
aqui no céu?
- Deve
- Então eu posso ser um anjo?
- Você sempre foi
- Senhor, obrigado
- De nada
- Senhor, eu poderei voltar
àquele mundo?
- Você nunca sairá de lá
- Meu Deus, se eu soubesse que
morrer era tão fácil, já teria morrido faz tempo.
- Não é assim. Tinha que ficar
por lá até ontem
- Por quê?
- Para que terminasse o seu
livro, aquele que começou há trinta e um anos, lembra? Acha que eu gostei do
título? “O jumento sedutor”. Não, mas seu livre arbítrio fez com que você tivesse
usado cada palavra que queria para escrevê-lo até a última linha antes que eu
assinasse: FIM.
(Ariano Suassuna morreu ontem (vinte e três de
julho de 2014) aos oitenta e sete anos, logo após concluir o livro “O jumento
sedutor” depois de trinta e um anos de tê-lo iniciado.)
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