quinta-feira, 7 de julho de 2016

Poemas


Às vezes os poemas não são escritos para serem lidos nem para serem sabidos.
        Às vezes os poemas são apenas para serem pensados por quem os tenha sentido isto porque eles são feitos só de lembranças, de coisas que nem sempre fazem sentido, mas existem porque são poemas por si próprios.
Às vezes não é preciso escrever um poema para se ser um poeta. A poesia e o poeta, na verdade não precisam um do outro. Eles simplesmente existem. A poesia está em todo lugar e o poeta nunca se sabe onde ele está... (Nem mesmo ele). O poeta descobre a poesia enquanto a poesia se esconde de quem não é poeta e assim a busca do poeta pela poesia é como a borboleta para um colecionador de borboletas. Cada uma é única. O poeta perde o sono enquanto a poesia dorme ao seu lado, o poeta perde a fome enquanto a poesia o alimenta, a poesia descansa no sofrimento do poeta enquanto procura as palavras da poesia que está no copo de café que está ao alcance da sua mão. Aí o poeta descobre que a poesia que sempre esteve ali perto do copo de café, no rio que sempre esteve ao lado da sua casa, na árvore ao lado da qual ele sempre brincou quando era criança ou o céu que ele sempre olhou displicentemente, quando ainda não se apaixonara pela primeira vez. E o poeta descobre também que nem precisa ser poeta, que basta se sentar novamente ao lado daquela árvore que ele sempre se sentou desde pequeno e olhar para o rio que ele vira desde sempre, se deliciar dividindo uma goiaba com os passarinhos para perceber que nem é preciso ser poeta para sentir o que os poetas sentem. A diferença é que os poetas precisam de palavras para explicar o que é óbvio ou questionarem o que não é compreensível. O amor, o mar, o céu, o poeta não encontra Deus e por isto escreve. Esta é a sua sina assim como a sina dos marinheiros levados pelo mar e que lá ficam pra sempre. O poeta nada mais é do que o escravo da palavra. O poeta morrerá poeta, mas a poesia sempre o encontrará. A poesia tende a se encostar no ombro do poeta e lá descansar, mas ela não dá descanso ao poeta, que a busca, a rascunha a escreve e a re-escreve e a rascunha de novo e escreve e re-escreve novamente e olha para o que escreveu e rasga o papel e começa a escrever novamente a mesma poesia, simplesmente por um capricho dos dois. Eles nunca se dão por vencidos. A poesia sabe que é melhor do que o poeta escreveu e o poeta também sabe disto. Então se torna uma convivência árdua e eterna. É mais fácil se apaixonar pela poesia do poeta do que pelo poeta que escreveu a poesia. A poesia sempre é simples enquanto o poeta sempre é complicado. A poesia, a gente entende sempre, o poeta, a gente quase nunca entende.
Ah! Se eu fosse poeta... Seria uma boa desculpa para ser incompreendido ainda que o mundo inteiro entendesse a minha poesia. Ah! Se eu fosse poeta para amar todas as mulheres, para amar o mundo inteiro sem precisar que ninguém me amasse. Se eu pudesse caminhar pela rua, maltrapilho e as pessoas ao me olhar dissessem umas às outras: “Não dêem atenção a ele. Ele é apenas um poeta”. Então quando ninguém me soubesse, eu poderia saber-me totalmente apenas por olhar para o céu, assoviar uma música qualquer e ver Deus. Assim eu pararia de escrever. E continuaria assoviando...



Friburgo 06/08/11 

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