sábado, 23 de julho de 2016

A fresta da porta

        A fresta da porta era nada além de uma nesga vertical por onde eu via do quarto da unidade de terapia intensiva partes de pessoas e pedaços de sons passarem. Risos e gemidos eram siameses, não faziam diferença e olhando para a parede e acima de meus olhos nunca eu sabia se era noite ou dia. Mirando num enorme relógio branco e redondo cujos ponteiros eternamente se arrastavam, eu só sabia que eram cinco ou sete horas, mas nunca se estava amanhecendo ou anoitecendo. Eu me supunha vivo, mas também não tinha certeza disso.
        Eu não sentia dor em lugar algum do meu corpo, aliás, não sentia meu corpo. Eu parecia ser inutilmente um cérebro vivo. As luzes estavam sempre acesas então era sempre dia ou sempre noite como eu resolvesse que deveria ser. Comecei a decorar nomes como “tais miligramas de tal coisa” em volta de mim só os números de uma máquina acesa desfilando linhas verdes umas rápidas, outras nem tanto e pessoas que também me tratavam apenas como uma máquina. Meu coração não era um coração, era um miocárdio e aproveitei para decorar também isto e a me relatar em outras ocasiões aos médicos o que o meu miocárdio estava sentido, às vezes meio acelerado às vezes meio descompassado – o que também aprendi a chamar de sincopado de tanto ouvir o termo 'síncope cardíaca".
        A toda hora alguém colocava coisas na minha boca que eu nunca sabia se era alimento ou remédio, outro enfermeiro passava uma esponja úmida e meio fria no meu corpo e antes me dizia que era hora do banho, até que num dia qualquer, me deram um papel meio rabiscado e me disseram que eu poderia voltar pra casa. Ninguém me cumprimentou e nem me desejaria “saúde” ainda que eu espirrasse. Assim que saí daquela UTI aproveitei para dar uma olhada pela fresta da porta, só que agora pelo lado de fora. Vi que a vida e também a morte dão para serem observadas por uma simples fresta vertical.
2011

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