São dez da manhã de um novo dia que na verdade pra
mim ainda é ontem. Ainda não dormi e o mais engraçado é que tanta coisa me parece
que foi ontem que aconteceu... Será? Eu nunca fui bom em contar o tempo do
jeito que os outros contam. Nunca sei direito que dia é hoje, não tenho hora
pra dormir, pra acordar então nem se fala... Preocupam-me, nunca, os amanhãs e
os ante-ontens se perdem com muita facilidade na minha memória.
Para muita gente, nesta hora, hoje é hoje mesmo, mas
pra mim o hoje ainda não começou e pelo jeito ainda faltam muitas horas para
que ele apareça aqui pela minha vida. Tenho tanta coisa pra fazer ainda antes
de dormir que este meu agora ainda é uma quarta-feira ensolarada, aliás, no meu
hoje de hoje já choveu, já teve sol, já choveu de novo, já escureceu, eu já
almocei duas vezes, e se este hoje fosse há alguns meses eu certamente já teria
ficado bêbado, ficado sóbrio e estaria bêbado de novo. Provavelmente o gerente
d’um banco nunca irá entender esta minha matemática de viver e espero que não
entenda o porquê senão perde a graça. Bom mesmo é sequer pensar em como as
outras pessoas medem os seus tempos e as suas vidas. Eu vivo diferentemente e
envelheço mais diferentemente ainda dos outros.
Um dia desses, eu usei um monte
de tempo jogando bolinha de gude com a molecada aqui na rua da minha casa, mas
eu tenho tanto tempo que aquele de então nem me fez falta.
Às vezes eu fico curioso por saber quando será que
eu vou envelhecer, mas algo me diz que eu vou morrer com plena juventude.
Possivelmente eu fique meio ultrapassado quanto às canções que eu normalmente ouço,
mas velho, isso não! Aliás, os jovens
que são jovens há pouco tempo, provavelmente não irão saborear as canções que
eu ouço além de acharem que Vinicius de Moraes é coisa pra velho... Que Deus
não os ouça!
Enquanto isso, enquanto o tempo passa, eu vou
brincando com o tempo, brincando de ser feliz, brincando de ver o sol nascer,
depois a lua brilhar, depois, o sol nascer novamente, tudo isso no mesmo dia e
mesmo assim ainda dá tempo pra ouvir uns Vinicius de Moraes como se fosse ontem
e, displicentemente, jogar bolinha de gude com a molecada de hoje.
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