Nasci cego. Eu e mais um monte de gente
que nunca soube o que é ver o sol nascer.
Mas o sol sempre nasce, pelo menos me
convenceram disto e eu confio quando acordo.
Sempre acho que o dia está ensolarado e
suponho que o barulho da chuva, quando a ouço é que o sol vem logo depois.
Acho que o mar é azul, de um azul só meu
e que as folhas são verdes porque inventei uma coisa chamada de verde na minha
cabeça.
Vejo algo que poucos vêem.
Vejo o amor.
Vejo-o como quem vê não o vê. Vejo-o,
sinto-o respiro-o e creiam, posso tocá-lo. Toco o amor de várias maneiras. O
piano me ajuda a tocá-lo e ser tocado por ele.
Não quero enxergar como as pessoas
comuns. Quero enxergar ao meu modo, sentir cheiros ao meu modo, supor a beleza
da minha maneira. Quero que os pássaros continuem a ser o que eu imagino e que
o futuro que eu vejo seja tátil e real.
Nasci e quero morrer cego e grato pela
vida, cego, ver o que é impossível aos olhos. Cego para supor que todo mundo é
confiável, cego para não distinguir brancos e negros, olhos azuis, roupas de
grife, cabelos ondulados, gordos e magros, baixos e altos. Cego eu consigo
perceber pelas palavras, pelo tom de voz, boas e más pessoas. Cego, noto o
perfume de uma mulher, e até a falsidade de um sorriso que me foi dado quando a
pessoa acha que eu não a vejo sem saber que eu vejo seu interior e sem que ela
veja que eu vejo que seu sorriso é triste.
Às vezes penso como deve ser triste
enxergar e de ver o que não se gostaria de ter visto.
As
pessoas fecham os olhos para beijarem seus amores enquanto eu estou de olhos
fechados o tempo todo e sinto mais amores do que as outras pessoas. Sinto o
aperto de mão porque meus dedos são treinados para descobrir o que há nas mãos
das outras pessoas. Consigo encontrar qualquer coisa que eu queira em qualquer
lugar em que eu esteja. Não assino meu nome porque tenho palavra. Palavra de
cego. Não corro do perigo por dois motivos: Não tenho para onde correr e não
vejo perigo em nada. Não anoto em papel nada do que me seja importante porque
decoro o que me importa. Talvez haja algum erro de português neste texto,
talvez não. Tateei o teclado do jeito que aprendi. Finalmente, agradeço por ser
cego, senão eu não seria assim tão lúcido e tão “overjoyed”.
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