É estranho
escrever sobre o que não se sente, ou pelo menos o que não se sente mais. Como
olhar para a fogueira que ontem espirrava fogo e hoje nem é fumaça, ou olhar
para o céu chuvoso quando antes era ensolarado.
É difícil
escrever sobre o que não se pensa mais, como o amor da juventude ou sobre a
própria juventude. A vida é um carro sem retrovisor, uma cidade submersa, um
lugar onde antes era floresta e agora é somente um nunca mais.
Mas é possível
pensar que tudo fora diferente, que tudo foi bom, que tudo está vivo e que as
palavras valem a pena e que estar vivo é não deixar que a lembrança morra.
A vida não é
apenas o amanhã, é o rascunho que a morte escreve. É o acúmulo de cada ontem, o
supor de uma felicidade não certa, é a falsa verdade de um sempre nunca.
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