Achei que tivesse perdido todas as páginas de vinte
e cinco anos atrás. Que nada. Sobrou-me uma que esperou guardada em algum lugar
dentro de uma gaveta, na verdade dentro de mim. (numa gaveta dentro de mim.)
E estavam ali todas as palavras, cada vírgula e todo
o sentimento de vinte e cinco anos que eu achava que tivessem sido jogados
fora, ledo engano. Estava tudo lá numa página de tantas que eu escrevera e me
bastou aquela página. Sinceramente não consegui reler tudo porque talvez eu
tenha perdido o direito de ter escrito aquilo.
Era 1987, era agosto e era dia vinte e dois. Faz tempo, faz tempo? Pra
mim não faz. Só perdi o direito de escrever tudo de novo depois de tanto tempo
e de tantas páginas escritas que não serão mais lidas, apesar de terem sido
escritas com profunda sinceridade, ainda é a mesma página.
A sinceridade também é algo que pode ser por algum
motivo desprezada com o passar do tempo, eu até compreendo que as pessoas achem
que as outras não tenham sido sinceras. Quando li o que eu escrevera, não tive
dúvida.
Amor não vai
embora quando se joga uma carta fora, amor não se desguarnece de si quando se
rasgam palavras, quando se-as jogam no lixo ou se-as queimam. Sobram vírgulas,
sobram reticências, sobram espaços entre as palavras e isto não se joga fora.
Entre as vírgulas e entre todos os espaços entre todas as palavras que escrevi
em vinte e cinco anos sobraram sentimentos, que ainda que sejam cinzas estão
por aí, numa só palavra: Você.
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