quarta-feira, 6 de julho de 2016

Roberto Carlos

Imaginemos a coisa acontecendo da seguinte maneira:
- O “Rei” não se admite ficar no mesmo patamar de seus súditos, e se recusa a gravar a vinheta de natal para a Globo. – Eu não acharia nada demais, caso isto acontecesse, afinal, quem pode, pode. Mas não foi assim que aconteceu. O Rei declarou que não poderia cantar de costas para aqueles a quem ele idolatrava.
Nunca tive motivo para escrever em defesa de Roberto Carlos. Nunca houvera sido necessário, mas desta vez sinto-me na obrigação de render-me não sei bem se a ele especificamente, mas à sua atitude. Isto é coisa de gente que dá valor à gente e que de certa forma, mesmo andando de jato particular consegue ser gostado por quem anda de ônibus e que sabe ler pouco. Talvez por isto suas músicas não sejam compreendidas apenas por filósofos, sociólogos, historiadores. Quem ouve Roberto Carlos não sabe o que é metáfora simplesmente porque não precisa saber o que é isto. Quando ele escreve que está triste por ter perdido um amor, ou feliz por ter encontrado um, todo mundo sente na pele e no coração o que ele quer dizer. Quando ele sentiu saudade do Caetano Veloso escreveu “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” e nenhum professor de português percebeu que ele falava da amizade. E aquilo não era metáfora. Só vieram a saber do que se tratava quando Ele quis que os outros soubessem. E disse isto ao Caetano: Essa música eu fiz quando senti saudade de você.
Roberto nunca escreveu contra governo, aliás, ele nunca escreveu contra nada, só a favor. Ele podia até ser a favor de algumas pessoas que eram contra alguma coisa, mas isto fica pra outra ocasião.
Não quero e nem vou me estender. Só queria mesmo deixar registrado o quanto senti vontade de tê-lo admirado um pouco mais, um pouco antes. Mas sempre é tempo de se reconhecer que um Rei não se faz por um título que lhe outorgam, mas por atitudes que lhe enobrecem. Eu nunca soubera que, sem me dar conta, ouvi durante toda a minha vida músicas simples, cantadas por uma pessoa simples e a quem eu não sabia por que o chamavam de Rei. Eu que sequer me considerava seu súdito, mudei de idéia.
E depois disto só me cabe uma frase: “Viva a monarquia!”

       Roberto Carlos foi aplaudidíssimo pelo elenco da TV Globo ao fazer uma "reclamação" durante a gravação da vinheta de fim de ano da emissora, no sábado, no Rio. Ao entrar no cenário do Projac e se dar conta de que os artistas ficariam atrás dele, em degraus, o Rei disse para o diretor Jayme Monjardim: "Isso não tá certo, bicho! Eu vou cantar de costas para todos esses meus ídolos?!". A gritaria foi geral. (Folha de São Paulo, 08 de novembro de 2011).




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