Ele subia a encosta uma vez por semana com
sua bicicleta e a mochila quase verde para entregar a correspondência ao poeta
que morava lá em cima, exilado, escondido sem parentes e sem amigos, este quase
mudo, o poeta.
O outro, que subia pedalando a bicicleta
sonhava em ser poeta, mas não era ninguém, quando chegava à casa do poeta e
batia palmas, apenas ouvia a voz, às vezes sonolenta, sempre grave que vinha
dentro da casa: Quem é?
- Não é ninguém, é o carteiro.
Aí foi que por certa curiosidade algum
dia o famoso poeta se precipitou ao sair pela primeira vez para saber quem era
aquele ninguém que pedalava para entregar-lhe a correspondência sempre às
segundas-feiras antes do almoço houvesse chuva ou não.
Ele, o da bicicleta, parecia mesmo não
ser ninguém. Olhava para o quase chão, e
de dentro da sacola desbotada de vento e poeira tirava os papéis, nem todos
endereçados ao poeta. O ninguém não sabia ler, mas sabia quais as cartas eram
para o poeta por que alguém já as separara e recomendava que, apenas as
amarradas com a fita azul, eram para serem entregues ao poeta que agradecia se virava
e nem sempre dizia bom dia ou até breve. Às vezes nem notava que “o ninguém” o
admirava tão de perto sem sequer retribuir com um aperto de mão. No máximo uma
moeda e um sorriso apenas meio morno, requentado, já quase de costas para
ninguém.
Um nunca perguntou ao outro qual era seu
nome. O poeta continuou a ser poeta e o carteiro continuou a ser ninguém. Mesmo
assim, aos poucos se transformaram em amigos e o poeta começou a pedir para que
o carteiro lhe contasse estórias sobre o povoado. O carteiro não tinha estórias
verdadeiras para contar então inventava coisas que o poeta transformava em
páginas escritas que se transformavam em livros que depois o poeta entregava ao
carteiro que entregava ao resto do povoado sem saber que eram suas as estórias
que o poeta escrevia.
Afinal, quem era o carteiro e quem era o
poeta?
Ninguém nunca escreveu sobre o poeta,
mas o poeta sempre soube que ninguém não deveria ser desprezado e assim começou
a escrever sobre a vida de ninguém. Escreveu sobre montanhas, escreveu sobre
bicicletas, escreveu sobre paisagens e sobre olhares de ninguém.
No final de seu último livro, o poeta
não permitiu que ninguém morresse. O poeta se matou sem a presença de ninguém.
Ninguém foi ao velório, ninguém chorou, ninguém carregou o caixão do poeta,
ninguém aprendeu a escrever e ninguém continuou a ser o carteiro já que ninguém
tinha mais um poeta para entregar-lhe cartas.
Ninguém se atreveu a escrever sobre a
morte do poeta, pois nem sabia escrever, portanto não o fez.. Ninguém inventou
uma estória na qual o carteiro ditava estórias que depois, no povoado quando
lidas em voz alta, escritas pelo poeta, ninguém desconfiava que fossem suas
próprias, aquelas estórias.
Agora morto, o poeta era ninguém e ninguém
era o poeta.
Anos depois a bicicleta subiu novamente a
ladeira que agora só era muito mais íngreme e muito mais custosa de ser vencida
por suas pedaladas, por causa das pernas mais cansadas, dos cabelos mais finos,
da pele mais enrugada do carteiro que bateu à porta da casa do alto da colina,
agora um pouco mais cansado com a mesma mochila lavada de chuva, secada e
cercada de estórias contidas em cartas com uma correspondência cujo sobrenome
era o mesmo do poeta quando ouviu a pergunta da voz de um jovem, vinda de dentro
da casa e cujos olhos e a testa e os cabelos e a boca não lhe mentiam. Era
filho do poeta:
-Quem é?
- Não é ninguém, é só o carteiro.
Esse, o filho do poeta sequer sorriu nem
estendeu a mão, pegou a correspondência com o mesmo sorriso de costas que já
era sabido pelo carteiro.
Ele, o filho, não ofereceu a ninguém um
café.
Ninguém não se importou com isso.
A bicicleta desceu a rampa sem precisar ser pedalada, bastava assoviar, deixar os cabelos finos se deliciarem com o vento. A sacola de cartas apenas ficou mais leve, mais empoeirada de terra e de tempo.
(Aqui
tá frio pra caramba. É inverno de 2014.)
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