Era uma vez um homem que não sabia
escrever, mas que adorava inventar estórias, então ele só as contava. Assim
ficou famoso na sua cidade. Cidade pequena e que muitas outras pessoas também
não sabiam escrever, mas que gostavam ouvir estórias. Ele inventava e sabia
todas as estórias de cor, se bem que de quando em vez trocava o personagem de
uma estória com a de outra e assim inventava outra estória, mas todas eram
verdadeiramente verdades. Uma tarde, por não ter o que inventar, convocou a
cidade para dizer que ele mesmo havia morrido. Garantiu que era verdade e
contou a estória de sua morte. Estória bonita, cheia de “entretantos”, até que
chegou aos “finalmentes”. Assim então ele garantiu que havia morrido e todos
garantiam que a estória era verdadeira. Não havia ninguém que duvidasse que o
Chico das taramelas houvesse morrido, apesar dele frequentar a padaria, o
açougue e deixar a conta para ser pendurada para que ele pagasse quando
voltasse a viver. Não havia dúvida de que ele voltaria para pagar as contas,
vivo ou morto.
Um dia, aliás uma tarde, aliás quase noite,
Chico das taramelas morreu mesmo. Sentado no banco da praça sem ninguém
perceber e muita gente ficou ali ouvindo uma estória que ele não chegou a
terminar de contar.
Diz-se
que o Chico das taramelas não morreu, aliás, sequer viveu. Conta-se que naquela
cidade nunca houve um Chico das taramelas, mas que todo mundo vai lá e ainda se
senta no banco, para ouvir as estórias que ele inventava e que na verdade era a
estória de cada um que de uma forma ou de outra queria reviver o seu próprio passado.
Há na cidade quem diga que Chico das
taramelas nunca existiu, há quem afirme que ele nunca morreu e que ainda frequenta
o banco da praça, é um meio-mendigo, meio-louco que não sabe escrever e que conta
estórias falando sozinho. Há quem duvide que ele exista ou tenha existido, mas
sentam-se para ouvir as suas estórias, ainda que não seja as dele, mas, as suas
próprias, que só o Chico das taramelas sabe e sem escrever conta a cada um sem
olhar-lhes nos olhos, cabisbaixo, com a voz rouca e apenas pergunta: É verdade
ou não?
Mesmo que não acredita é incapaz de olhar
para o banco daquela pracinha e não ver o seu próprio passado. Não há quem não
se convença de que o Chico das taramelas esteja lá, junto com nossa memória.
Com Chico das taramelas nossa infância não precisa ser escrita, está nas suas estórias
e nas de cada um que as tenha vivido ou não. Isso nunca se saberá.
Dizem que na padaria da cidade existe uma
caderneta e que em uma página há o nome de Chico das taramelas escrito com uma
letra que quase não se compreende: “A ver” e logo abaixo: Chico das taramelas –
235,00 (Duzentos e trinta e cinco contos de
réis).
Isso é o que contam. Isso é o que conta. Ou
é só um faz de conta da imaginação de cada um que senta naquele banco da
pracinha e conta pra outra pessoa um conto garantindo que foi Chico das
taramelas que lhe contou.
Itabuaçú
do norte, Janeiro de 1936.
(ou
37.)
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