sábado, 2 de julho de 2016

Acordar

        Acordar toda manhã é óbvio até que não se acorde mais, se morra, mas acordar sozinho passa a ser diferente depois de tantos anos acordando junto, juntos, ajuntados mesmo, agarrados, abraçados de conchinha. É um quase não acordar.
Fica faltando uma parte do corpo da gente mesmo, aquele pezinho pra esfregar, aquele resto da gente que deveria estar ali na cama, não falta coisa nenhuma, falta vida. Falta puxar a coberta pro seu lado como desculpa para se esquentarem um ao outro, falta combinar mais cinco minutos na cama.
        Acordar de manhã sozinho não é nada demais, é de menos. É de menos calor, é de menos mais alguma coisa qualquer. É não ter a quem desejar bom dia, para quem não contar o sonho que você teve, é não ter brigado pela última fatia do pão, não saber para quem perguntar onde estão seus chinelos. É meio - que a metade de um inteiro -.
Acordar sozinho é mais ou menos ter qualquer lado da cama para se levantar, sendo que era bom tem quem dar um beijo em alguém que estivesse dormindo do outro lado. Era ter alguém ao lado. Acordar sozinho é não dormir de mão dada. É ter a mão sem conseguir fazer cafuné, é uma temperatura só quando poderiam ser duas temperaturas somadas no inverno.
        Dormir só é quando a cama de casal faz mais sentido do que fazia anteriormente. Quando dormir no sofá não faz a menor diferença. Quando o despertador só interessa a você. Quando ninguém é. Quando não há ninguém pra você brigar, dormir de costas pra depois acordar abraçado.
Aí, quando se dorme e se pensa que dormiu junto, olha-se no espelho e percebe-se que sonhou o sonho de ter voltado no tempo. No quando respirar junto era tão óbvio quanto o próprio respirar, mas não é mais. Falta um pedaço de ar, falta todo o restante do sono. Acordar sozinho parece acordar dormente. Não se sente o que se deveria sentir. Então, às vezes dá até vontade de desacordar.


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