Há cinqüenta anos eu não imaginava que iria escrever
este texto, também, pudera. Há cinqüenta anos eu chegava a este mundo, desnutrido,
fraquinho, o mais importante na minha vida era ter o seio da minha mãe quando
eu chorava. Mas se passaram cinqüenta anos e eu estou aqui, sem o seio da minha
mãe, sem ela inteira e com um mundo todo à minha frente pra eu brigar com ele
sem opção a não ser a minha própria existência. Briguei com meus irmãos de
sangue, mas a melhor coisa foi ter feito as pazes com eles, aliás, obrigado por
serem meus irmãos, caso contrário não teria tido a menor graça. Tia Bete é um
capítulo à parte, por isso nem vou comentar sobre o carinho que eu sinto por
ela.
Vivi até hoje de uma maneira bem legal,
muitos porres, muitos amores a mim oferecidos e muitos outros recebidos, vi
muito sol nascer, e muitas luas brilharem pelo céu. Contei estrelas, contei
estórias, ouvi outras tantas, não sei o que foi melhor. Fui aplaudido e me
emocionei com pessoas que podiam estar no palco ou no meio da calçada. Dei
gargalhadas e chorei pelos mesmos motivos dependendo do meu próprio olhar a
respeito da vida. Tenho filhos, tenho netos a quem amo, todos, tenho uma
história pra contar. Eu tenho poucos amigos, mas estes poucos são verdadeiros e
são os melhores que alguém pode ter.
E a estrada ainda é longa. Não tenho
mais idade... O que tenho agora é tempo Quero
viver ainda muito e morrer pescando, com uma cerveja ao meu lado e eu brigando
contra a vida do peixe. Vai ser divertido se ele ganhar a disputa.
Cinqüenta anos é algo curioso. Faz a
gente parar, sentar, rezar e agradecer enquanto não importa mais o que haja a
ser pedido. Se já me foram dados cinqüenta anos de vida, pedir o que mais? Deus
vai ficando mais perto, mais amigo, Deus fica mais dentro da gente, sei que não
é fácil explicar isto, mas se precisa de pelo menos cinqüenta anos para
entender o que eu entendo agora. É como se Deus sentasse ao seu lado, batesse
no seu ombro e dissesse: Então bonitão e agora? Cinquentinha, heim!? Quer mais
um empurrãozinho? E você pensa: Um empurrãozinho pra cima ou pra baixo? (Deixa
pra lá...)
Estou aqui sozinho num quarto,
escrevendo palavras que de alguma forma estão rodeadas por Deus.
Acabo de perceber que ainda faltam vinte
e quatro horas para eu completar cinqüenta anos. Vou dormir e pretendo sonhar
com uma pescaria. Caso eu não acorde, sorte do peixe.
16/05/10
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