Como seria se eu fosse cego? Se eu nunca tivesse enxergado?
Se eu apenas a reconhecesse pelo perfume que ela
usa, se eu apenas a reconhecesse pelo seu gargalhar, e se eu fosse cego? E se
eu tivesse tocado a primeira música pensando nela sem saber se ela estava lá?
Sem saber se ela me olhava, em
vão... Em vão? Como seria sem tê-la visto tê-la imaginado na
minha música, tê-la suposto na ponta dos meus dedos e dentro do meu coração,
tudo na mais profunda escuridão? Como teria sido ela saber-me cego, cego por
ter olhado para ela e a partir disto não ter conseguido ver mais nada? Seria
então cego eu, ou cego o amor? Como teria sido eu cego, sentindo as suas mãos
apertando as minhas depois de eu ter tocado uma música pra ela, como saber como
seriam os olhos cujo brilho eu não teria nunca visto? Como seria saber meu
coração batendo forte, mesmo que ela não estivesse lá e eu tocando uma música
para ela? Como seria subitamente sentir a sua presença ainda que ela estivesse
a uns não sei quantos quilômetros de mim? Sei como foi chorar quando
sabidamente imaginei que ela não estava por perto, sei, sem ver, o quanto quis
dormir para conseguir vê-la, sei o quanto não foi necessário fechar os olhos
para passear com ela na praia, eu não veria mesmo, mas pensaria uma mulher linda,
sentiria o vento rodeando nossos corpos, eu de mãos dadas, com ela me guiando,
suporia seus olhos, sentiria o seu carinho, e amaria tocar o seu corpo, isto
caso eu fosse cego. Caso eu fosse cego, saberia tocar seus cabelos com mais
cautela para senti-los melhor, fosse eu cego, teria mais cuidado com cada parte
do seu corpo, e possivelmente conseguiria ver o que nela é invisível aos olhos.
Infelizmente eu não sou cego. Uma
brincadeira de Deus. Deus não me deixou ser cego para que me aproximasse mais dos
perfumes, das mãos, dos carinhos, nem dos cabelos. Deus me pregou esta peça de
ver, com os olhos o que é impossível ser enxergado com a alma. Enxergo. Consigo escrever sobre a cegueira. José
Saramago, depois de tê-lo lido, acho que entendi algumas coisas. Não tenho
muito mais a escrever, mas dedico este texto a Stevie Wonder, e me permito
sentir-me “Overjoyed”. “Temos mesmo que
ser cegos pra enxergar algumas coisas nesta vida.” O resto eu deixo para quem
pensa, inutilmente, que vê o que os cegos conseguem simplesmente porque amam e
possuem o amor nas pontas de seus dedos.
Friburgo, uma quarta-feira, (ou terça)
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