Carteira
de motorista vencida – DETRAN – Documentos – Xerox prá lá e prá cá –Guichê com aquela moça mal-humorada – Falta
uma Xerox – esse original ta sobrando...
Parecia que ela estava de costas porque parecia que a bunda dela ficava
na barriga e que a barriga lisinha tinha ido parar na bunda. Talvez por isso
ela tivesse aquela cara também fora do lugar.
Depois
que parecia tudo resolvido, foto feita, não sei quantas digitais arquivadas, a
moça confirmando se eu tinha menos de sessenta e seis anos, eis que me entregam
o papel.
SETOR DE
INFORMAÇÕES
A
moça, outra, que até era bonitinha, jovem, mas etecéteras mentais à parte, me
perguntou:
O
senhor vai fazer o exame de vista aqui em Friburgo?
- Posso
fazer em Cuba?
A
sua inteligência (dela) fez uma cara dela mesma, ou seja, nada inteligente
apesar de bonitinha, e respondeu, ou perguntou:
-
Mas Cuba é aqui no Estado do Rio?
-
É.
-
Então tá, Estado do Rio de janeiro.
Ouvi-a
aceitar e digitar.
-
Cuba é algum bairro? Aqui só tenho vaga disponível no centro da cidade. Serve
para o senhor?
-Não
tem no centro de Cuba? Pode ser o que você quiser, linda! ...Então tá bem. E
agora como eu procedo?
-
É só o Senhor ir lá pagar a taxa, fazer o exame, depois trazer o resultado e
pegar a carteira de motorista dentro de cinco dias úteis.
-
Ah, ta... Só uma última pergunta: E se eu não passar no exame de vista como
fica?
-
Todo mundo passa. Só se o médico der um atestado de que o senhor é cego, aí o
senhor tem que passar pela perícia para depois do laudo vir pegar a carteira
provisória para depois pegar a carteira definitiva. Mas se o senhor tiver mais
de sessenta e seis anos não precisa pagar a taxa novamente.
-
Entendi. Só mais uma duvidazinha de nada. Se o laudo comprovar que eu sou cego
vocês devolvem os meus cento e dez reais que eu paguei para dar entrada nos
papéis?
-
Senhor este tipo de informação é no segundo andar. O senhor pega o elevador,
segue à direita, segunda porta, fala com
a Sandra, só que ela só volta as três horas porque agora é horário de almoço
dela, tá?
- Mas
não tem nenhuma outra pessoa para esclarecer isso?
- Não
senhor, só ela mesmo e se eu fosse o senhor aproveitava hoje porque amanhã ela
entra de férias. Obrigado senhor... (errando de novo o português) O próximo...
* * *
Eu
já estava na página 96 do livro que prudentemente havia levado. Eu já estava
até economizando a leitura porque o livro só tinha 215 páginas. Fiquei
preocupado em saber do final do livro antes de saber do final da peregrinação
pelo DETRAN só por causa da renovação de uma carteira de motorista. Até que vi
uma mulher entrando pela porta na qual eu estava encostado ao lado, de pé, fingindo
não ter pressa. Eu duvidei de que o nome dela fosse Sandra, porque ela parecia se
chamar Gerúndia. Ela tinha cara de verbo que está acontecendo, mas que nunca
acontece.
Até
que ela entrou na saleta e gritou “o próximo”. Eu nunca me senti tão próximo a
uma mulher e até olhei para os lados para acreditar que era a minha vez,
justamente na hora que o livro estava numa parte interessante entre a página
118 e 119. Ela tinha que me chamar justamente agora?
-
Boa tarde, eu só vim pedir uma informação sobre o exame de vista.
-
O senhor vai fazer o exame aqui em Friburgo mesmo?
-Eu
pedi para fazer em Cuba, mas me mandaram para o centro da cidade.
-
O centro da cidade de Friburgo ou de Cuba, sem olhar para mim, lambendo o dedo
que parecia ainda ter um pouco do resto da sobremesa do almoço.
-
Daqui.
-
Então é mais fácil. O senhor tem mais de sessenta e seis anos?
-
Provisoriamente não.
-
Reside na cidade?
- Provisoriamente
sim.
-
E qual sua dúvida, senhor?
- Se
eu não passar no exame de vista posso pedir meu dinheiro de volta?
-
Só depois que o senhor completar sessenta e seis anos. O senhor pode estar indo ao quarto andar,
estar fazendo um requerimento de ressarcimento junto ao estado, anexar o
protocolo ao seu prontuário, pagar uma taxa de ressarcimento de taxa, e se
tiver alguma dúvida pode estar voltando aqui e falar com a Cátia porque este é
o setor dela. “Obrigada”... O próximo!
Saí
da sala com tudo decorado, a taxa da taxa, os sessenta e seis anos, e curioso
por saber qual era o gosto que a Gerúndia tinha nos dedos que lamberia até a
próxima refeição.
O EXAME DE VISTA
-
Boa tarde.
- Boa
tarde.
- O senhor tem agendamento marcado?
-
Sim senhora
-
O senhor tem mais de sessenta e seis anos?
-
Provisoriamente não
-
O senhor mora na cidade?
-
Cuba?
-
Não, Nova Friburgo
-
Provisoriamente sim
O
senhor pagou a taxa?
-Provisoriamente
sim, até eu saber se sou cego.
-
Xerox do documento de renovação estadual de procedimento unificado de
transferência de habilitação do estado de São Paulo para o estado do Rio.
-
Heim?
-
Aquele papel branco que o senhor pagou no banco
-
Ufa. Este?
-
É. Um momento.....(celular dela tocando)
-
Posso perguntar uma coisa? Vai demorar?
-Depende.
O doutor Carlos Alberto ainda nem chegou, mas o senhor pode sentar ali na
segunda fileira, depois daquela moça de vestido verde.
-Desculpe-me,
mas tem duas senhoras de vestido verde. Estou depois de qual delas?
-
A de verde escuro, claro. A de verde claro é só para pegar uma receita de
óculos escuro.
* * *
Página
cento e vinte do meu livro. Eu já nem queria saber quem era o assassino da
estória da Ágatha Christie e olha que pra não querer saber o final de um livro
dela tem que estar muito calmo, enfim, peguei uma revista sem capa e fiquei
lendo as notícias do último capitulo de uma novela global que já havia
terminado fazia sei lá quanto tempo,mas que para mim era novidade. Pelo menos eu descobri que
foi Carminha quem matou Max. Permaneci
com o livro dentro da minha sacola.
ENFIM...
Ouvi:
Ary Costa:
O
sujeito usava um par de óculos que de lentes tão grossas pareciam esmeraldas
envidraçadas. O jaleco não tinha nada de branco, no máximo amarelo, claro. Em
vez de me cumprimentar, olhou para o relógio, como se estivesse muito mais interessado
em comer um lanche na esquina e tomar uma coca-cola até expurgar parte de sua
barrigona com um demorado arroto.
-
Sente-se
-
Onde?
- Na
cadeira
-
Que cadeira?
-
Esta aí atrás
-
Tem uma cadeira aqui?
-
Tem
-
Se o senhor diz, eu acredito
-
Esquece. Olha pra cá
-
Dá uma dica, pra direita ou pra esquerda?
-
Pra parede
-
Esta preta?
-
Não! Essa branca
-
Tá. Tô pronto
-
Leia as letras na ordem
-
A B C D E F
-
Não
-
Na ordem em que estão aqui na tela
-
Ué! O senhor tira as letras da ordem e pede pra eu ler as letras na ordem?
-
Então leia as letras que estão fora da ordem
-
Eu tenho direito a quantos erros?
-
Sei lá, vai logo.
-
Não me apressa porque se eu ficar nervoso aí é que eu não consigo adivinhar as
letras
-
Adivinhar?
-
É.
-
Caralho, o que eu vim fazer aqui hoje?
-
Meu exame de vista. Posso começar?
-
Deve
- Na
primeira linha tem “c”?
-
Não
--Então
não tem cedilha,certo?
-
Certo
-
Então já acertei uma, anota aí
-
Na segunda linha tem duas letras erre?
-
Não
- Então
na segunda linha não tem a palavra erro, certo?
- Certo
- Anota
aí que eu acertei mais uma
-
Essa terceira linha por acaso tem alguma consoante?
-
Sim. Tô indo bem
-
Falta só uma linha. Vai logo
-
Se eu acertar o senhor assina meu exame de vista?
-
Claro, mas vou ser rigoroso com esta última linha porque as letras são bem
pequenas. Combinado?
-
Combinado
-
Então o que o senhor vê agora?
-
Vejo que seu zíper está aberto, doutor.
* * *
Cinco
dias depois recebi minha carteira de motorista das mãos daquela moça que chamou
pelo meu nome e me disse educadamente:
-
Boa tarde, o que o senhor quer?
-
Boa tarde. Eu vim pegar minha carteira de motorista.Passei no exame e vista.
-
Pois não: O senhor tem mais de sessenta e seis anos? (...)
Nova
Friburgo, 01/08/2014
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