Inevitavelmente
a gente fica mais velho a cada segundo
Mesmo
enquanto escreve.
Os
cabelos ficam mais brancos, o olhar mais seguro
Enquanto
escrevemos.
A
pele perde a textura e a voz também embranquece.
As
pernas não respondem mais à vontade de jogar futebol.
A
velhice nos faz sentir saudade da infância que a gente em algum dia achou que
fosse eterna. A gente sente dificuldade em dobrar as pernas para calçar as
meias e o raciocínio muda de velocidade. A gente não entende a juventude
daqueles que quando tinham a nossa idade não entendiam a velhice como a dos que
hoje somos.
Transformamo-nos em observadores vendo a vida passar
com mais serenidade, com menos afã, com menos expectativas. Achamos que é a
melhor parte da vida, mas não é. É o conformismo com a proximidade do fim
daquilo que nunca entenderemos. A plenitude da vida. A singularidade da
finitude instalou-se definitivamente no nosso corpo.
Ah! Tempo quando os amanhãs eram incontáveis, quando
as feridas, quaisquer, cicatrizavam entre uma semana e outra, quando a ressaca
era bem vinda e as gafes eram motivo de piada.
Ah! Tempo quando o frescor da juventude nos permitia
noites sem dormir, sem comer direito, tempo quando o que mais atrapalhava a
vida era a mãe da gente mandando levar o agasalho, tempo quando imaginávamos
como seria a sensação de beijar na boca e quando então o beijo acontecia nos
fazia tremer as pernas e sincopar o coração.
Ah! Tempo quando o tempo não nos fazia falta, quando
tanto fazia ser hoje ou amanhã. O tempo era sempre. Agora o tempo é pouco. A gente rezava pouco
por que não precisava se sentir tão perto de Deus. Deus agora é tão perto que
haja reza, haja Deus pra todos nós, velhos que não morremos ainda por
misericórdia ou quem sabe para que aprendamos mais, ou por que ainda tenhamos
aprendido tão pouco. As gotas do tempo agora são mais escassas, portanto mais
saborosas.
Há tanta coisa que muda durante o tempo em que
envelhecemos.
Há
tanta coisa que “eles” não sabem e que só vão saber após envelhecerem.
Há
tanta coisa ainda para ser escrita, lida, rida, chorada e vivenciada que o
tempo só nos mostra depois de muito tempo...
Incansavelmente
eu procuro respostas em
livros,
em músicas, em Deus, mas acima de tudo em mim mesmo.
“Evitavelmente” a gente pode não envelhecer, pode
não se sentir envelhecido apesar dos cabelos brancos e do futebol assistido
pela arquibancada, apesar da pele do sorriso ser mais enrugada e dos olhos
serem mais severos. Podemos sentir-nos jovens, (apenas sentir-nos).
Ainda
bem que a gente ainda pode colocar uma roupa bonita, sair no sábado à noite e
até tomar um porre. Só que a ressaca vai demorar mais tempo pra passar, porém,
possivelmente será mais inesquecível, será mais eterna. Uma coisa é ter medo da
morte outra é começar a sentir saudade da vida. – Sábio Vinicius de Moraes -.
Podemos ficar velhos e não entender nada disso que
acontece conosco, mas podemos continuar a busca. Aí no final, quando não faltar
mais nada, poderemos descobrir que tudo aquilo o que vivemos, agora se chama Eternidade.
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