domingo, 3 de julho de 2016

Inevitavelmente

Inevitavelmente a gente fica mais velho a cada segundo
Mesmo enquanto escreve.
Os cabelos ficam mais brancos, o olhar mais seguro
Enquanto escrevemos.
A pele perde a textura e a voz também embranquece.
As pernas não respondem mais à vontade de jogar futebol.
A velhice nos faz sentir saudade da infância que a gente em algum dia achou que fosse eterna. A gente sente dificuldade em dobrar as pernas para calçar as meias e o raciocínio muda de velocidade. A gente não entende a juventude daqueles que quando tinham a nossa idade não entendiam a velhice como a dos que hoje somos.
Transformamo-nos em observadores vendo a vida passar com mais serenidade, com menos afã, com menos expectativas. Achamos que é a melhor parte da vida, mas não é. É o conformismo com a proximidade do fim daquilo que nunca entenderemos. A plenitude da vida. A singularidade da finitude instalou-se definitivamente no nosso corpo.
Ah! Tempo quando os amanhãs eram incontáveis, quando as feridas, quaisquer, cicatrizavam entre uma semana e outra, quando a ressaca era bem vinda e as gafes eram motivo de piada.
Ah! Tempo quando o frescor da juventude nos permitia noites sem dormir, sem comer direito, tempo quando o que mais atrapalhava a vida era a mãe da gente mandando levar o agasalho, tempo quando imaginávamos como seria a sensação de beijar na boca e quando então o beijo acontecia nos fazia tremer as pernas e sincopar o coração.
Ah! Tempo quando o tempo não nos fazia falta, quando tanto fazia ser hoje ou amanhã. O tempo era sempre.  Agora o tempo é pouco. A gente rezava pouco por que não precisava se sentir tão perto de Deus. Deus agora é tão perto que haja reza, haja Deus pra todos nós, velhos que não morremos ainda por misericórdia ou quem sabe para que aprendamos mais, ou por que ainda tenhamos aprendido tão pouco. As gotas do tempo agora são mais escassas, portanto mais saborosas.
Há tanta coisa que muda durante o tempo em que envelhecemos.
Há tanta coisa que “eles” não sabem e que só vão saber após envelhecerem.
Há tanta coisa ainda para ser escrita, lida, rida, chorada e vivenciada que o tempo só nos mostra depois de muito tempo...

Incansavelmente eu procuro respostas em
livros, em músicas, em Deus, mas acima de tudo em mim mesmo.

“Evitavelmente” a gente pode não envelhecer, pode não se sentir envelhecido apesar dos cabelos brancos e do futebol assistido pela arquibancada, apesar da pele do sorriso ser mais enrugada e dos olhos serem mais severos. Podemos sentir-nos jovens, (apenas sentir-nos).
Ainda bem que a gente ainda pode colocar uma roupa bonita, sair no sábado à noite e até tomar um porre. Só que a ressaca vai demorar mais tempo pra passar, porém, possivelmente será mais inesquecível, será mais eterna. Uma coisa é ter medo da morte outra é começar a sentir saudade da vida. – Sábio Vinicius de Moraes -.
Podemos ficar velhos e não entender nada disso que acontece conosco, mas podemos continuar a busca. Aí no final, quando não faltar mais nada, poderemos descobrir que tudo aquilo o que vivemos, agora se chama Eternidade.



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