Minha
mãe, ainda que restrita ao vocabulário da quarta série primária, mas imersa em
sua filosofia que ia muito além do que as palavras que ela aprendera na escola,
disse um dia, sentada no sofá da sala da casa onde eu crescera e que agora eu vejo
tanto ela quanto a sala, de forma diferente de tantos anos atrás, minha mãe já
quase entupida de remédios contra o câncer ao qual ela fatalmente sucumbiria,
com a voz envelhecida e os olhos olhando para não sei onde, não sei se para mim
ou para alguém que ela não fizesse questão de que a ouvisse: “O engraçado da
vida é que a gente passa a vida inteira tentando entender como a vida funciona
e quando a gente por fim entende como a vida funciona, ela então já está no
fim.” Ela disse exatamente isto, faz já uns tantos anos.
Estou
agora fumando um cigarro e tomando uma vodka. Isto vai possivelmente me matar,
mas não necessariamente. A gente morre de um jeito ou de outro, com vodka ou
sem ela, mas de qualquer forma a gente morre sempre um dia antes do que deveria.
O que mata a gente não é a vodka nem o cigarro. A vida sutilmente se incumbe de
nos matar.
Acho que todo mundo morre um dia antes.
Todo mundo morre um dia
antes de pedir perdão pelos seus erros, todo mundo morre um dia antes de dar mais
um beijo na boca, todo mundo morre antes de procurar um amigo pra dizer que
está com saudade, morremos sempre um dia antes do último dia de nossas vidas. A
vida sempre deveria ter um dia a mais, nem que fosse pra sair descalço e pegar
uma chuva “daquelas”, sem o compromisso de não ficar gripado no dia seguinte.
Se eu morrer amanhã,
morrerei um dia depois de ter escrito que a gente morre sempre um dia antes.
Pelo menos não terei morrido um dia antes de ter escrito que fui imensamente
amado e que amei muito mais do que eu sabia amar. Que aprendi a amar por ter
sido amado e, portanto se eu morrer amanhã tudo estaria dito, e eu farei do
amanhã um ontem.
Pena que quando a gente
aprende a amar, o amor sobrevive, mas a vida acaba.
Aplausos para minha mãe,
Dona Enéia e para sua quarta série primária.
03/2012
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