sábado, 2 de julho de 2016

A casa da mãe Joana

O termo “casa da mãe Joana” ainda que para os menos esclarecidos venha a ter um sentido pejorativo, não é bem assim. Quem se propuser a dar uma espiada com calma na história perceberá o significado implícito neste termo e assim orgulho-me de ter nascido na Casa da Mãe Joana, conhecida por alguns como Brasil. Não confundam, por favor. Não é que a casa da mãe Joana fique no Brasil, o Brasil é a própria casa da Mãe Joana. Tentando esmiuçar um pouco esse imbróglio começarei pelo orgulho de um país onde se tem total liberdade de entrar e sair, ir e vir, permanecer, caso o ame ou deixá-lo, caso prefira a Europa Dinamarquesa. Aqui se toma caipirinha, tem flamengo, tem feriado à beça além dos enforcamentos dos feriados. Aqui não se leva político a sério, pouca gente sabe quem é o vice-presidente nem pra que ele serve. Aqui no carnaval delegado samba abraçado com bandido e se bobear, ambos vestidos de mulher. Saudade do João Ubaldo Ribeiro que adorava viver na casa da mãe Joana e conseguiu durante toda sua vida. João, carioca de Itaparica na Bahia viveu e morreu no Leblon, praticamente na sala da casa da mãe Joana.
Aqui é o mundo: Tudo acaba em pizza como se você estivesse na Itália, Em vez da melancolia do tango temos frevo, os Ingleses esquecem-se do scotch e logo se apaixonam pela nossa caipirinha porque o limão de lá não é gostoso como o limão daqui (curiosamente o nosso é mais azedo) Se a nossa vodka não é gelada, não tem problema a gente “taca” gelo nela e pronto. Nosso champanhe daqui é de maçã e é cotado em real mesmo, e alguém liga pra isso? Nosso jazz é o samba que, só de raiva, os americanos nunca conseguiram tocar direito. A casa da mãe Joana também não tem janelas, quero dizer, elas nunca se fecham, basta olhar em volta e logo ali por todo canto, digo por todo encanto estão: o mar, o céu, o sol, as estrelas... Vê-se tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro da casa da Mãe Joana, vulgo berço esplêndido.
Você já foi à Bahia? Não? Então vá!

A casa da mãe Joana possui mais sotaques do que pipiar de pintos num galinheiro e todo mundo se entende. Não me venham com essa coisa de que o Brasil é desorganizado, que é uma bagunça, aliás, bagunça pode até ser, mas desorganizado, isso é que não é mesmo. Certa ocasião eu fui a uma festinha de criança na qual o palhaço não apareceu. Adivinhem pra quem sobrou a parte do palhaço? Isso mesmo. Pro papai aqui.  Logo para mim que nem filhos tenho, tive que improvisar. Deu certinho da Silva, se bem que a metade das crianças logo descobriu que o palhaço era eu (ou o contrário) só porque eu tenho um defeito na perna esquerda e o meu claudicar logo revelou a minha identidade secreta. Imagina um imprevisto desses na Suécia? Seria um escândalo, aqui foi uma farra. Eu até descobri a minha “palhacice” nata, pode?
Na Europa contrata-se prostituta por hora ou fração. Elas transam olhando para o relógio e dane-se se você gozou ou não, problema seu.  Aqui, se bobear a puta se apaixona por você e se bobear mais ainda, você se separa da sua mulher pra ficar com a puta... Depois você volta pra sua mulher que por sinal está grávida... Grávida?
Ah, o paraíso... Dizem que o inferno é aqui. Quem diz isso não freqüentou a casa da mãe Joana, não é verdadeiramente Brasileiro com “b” maiúsculo.


[...] Caso na casa da mãe Joana houvesse porta, a chave estaria sempre em posse de João Ubaldo Ribeiro... E com louvor!

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