Se a madrugada é gelada, meu coração,
não.
Minhas mãos geladas me obrigam a
escrever palavras quentes
Quentes,
inspiradas pelo meu coração.
Meus dedos
deslizam pelo teclado ditando para mim as palavras que devo escrever. Minha
respiração obedece ao compasso do meu coração e dos meus dedos. Olho para o
teclado de vez em quando e quando não concordo com minhas próprias ideias,
apago tudo e recomeço, letra por letra linha por linha. A vodka ampara minha
friagem de inverno.
Se a madrugada é
gelada, meu coração, não.
Recomeço a
juntar letras uma por uma com as mesmas mãos geladas de anteriormente apenas com
a companhia de um cachorro que uiva sei lá de onde, talvez ele solitário. Escrevo
enquanto que talvez quem esteja solitário seja eu, e o cachorro possa apenas
estar só com frio por falta de uma dose de vodka.
O cachorro
continua uivando. Eu continuo escrevendo. Será que ele quer me dizer alguma
coisa? Será que ele quer me pedir alguma coisa? Será que ele quer me ensinar
alguma coisa? Será que ele está triste? Ou será que é o contrário?
Será que ele
está feliz porque ele sabe que há alguém escrevendo sobre ele? Será que ele
sabe que eu o suponho feliz ou triste? Por que ele não late, só uiva?
Será que ele
sabe que eu o estou ouvindo? Será que ele uiva para que eu o ouça e que eu não
pare de escrever?
Será que está me
desejando feliz natal?
Tá frio, tá
gelado aqui onde moro.
Dizem que aqui é
longe, mas
Longe de onde, longe
que quem, longe do que?
Se a madrugada é
gelada, eu e o cachorro estamos, ao nosso modo, nos entendendo.
Se meu coração é
quente, do que importa a madrugada gelada?
Importa o que
meus dedos conseguem escrever. Importa o que o cão não se cansa de ditar para
mim em forma de inspiração: “Feliz natal”.
Eu certamente
sozinho aqui
Ele talvez
sozinho, sei lá onde.
2001
Nenhum comentário:
Postar um comentário