sábado, 2 de julho de 2016

A madrugada é gelada

Se a madrugada é gelada, meu coração, não.
Minhas mãos geladas me obrigam a escrever palavras quentes
Quentes, inspiradas pelo meu coração.
Meus dedos deslizam pelo teclado ditando para mim as palavras que devo escrever. Minha respiração obedece ao compasso do meu coração e dos meus dedos. Olho para o teclado de vez em quando e quando não concordo com minhas próprias ideias, apago tudo e recomeço, letra por letra linha por linha. A vodka ampara minha friagem de inverno.

Se a madrugada é gelada, meu coração, não.
Recomeço a juntar letras uma por uma com as mesmas mãos geladas de anteriormente apenas com a companhia de um cachorro que uiva sei lá de onde, talvez ele solitário. Escrevo enquanto que talvez quem esteja solitário seja eu, e o cachorro possa apenas estar só com frio por falta de uma dose de vodka.

O cachorro continua uivando. Eu continuo escrevendo. Será que ele quer me dizer alguma coisa? Será que ele quer me pedir alguma coisa? Será que ele quer me ensinar alguma coisa? Será que ele está triste? Ou será que é o contrário?
Será que ele está feliz porque ele sabe que há alguém escrevendo sobre ele? Será que ele sabe que eu o suponho feliz ou triste? Por que ele não late, só uiva?
Será que ele sabe que eu o estou ouvindo? Será que ele uiva para que eu o ouça e que eu não pare de escrever?
Será que está me desejando feliz natal?

Tá frio, tá gelado aqui onde moro.
Dizem que aqui é longe, mas
Longe de onde, longe que quem, longe do que?

 Se a madrugada é gelada, eu e o cachorro estamos, ao nosso modo, nos entendendo.

Se meu coração é quente, do que importa a madrugada gelada?
Importa o que meus dedos conseguem escrever. Importa o que o cão não se cansa de ditar para mim em forma de inspiração: “Feliz natal”.
Eu certamente sozinho aqui
Ele talvez sozinho, sei lá onde.

                                                                               2001

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