sábado, 2 de julho de 2016

Despalavreado

Hoje estou meio “despalavreado”, não por falta de palavras e sim por medo de mal usá-las, para lhe desejar bom dia, mas caso eu estivesse mais palavreado, acho que todas as minhas palavras se resumiriam mesmo em bom dia, se bem que no fundo eu quisesse fazer tanto mais... Possivelmente eu lhe enviasse rosas, caso eu soubesse o seu endereço, talvez eu ligasse pra você caso eu tivesse o seu número, possivelmente eu esperasse você na porta do seu trabalho caso eu soubesse onde você trabalha e até quem sabe eu a raptasse para passar o dia comigo escondidos ambos em algum lugar, talvez longe, talvez perto, na minha casa, quem sabe... Mas tudo não passa de reticências que vão permeando a minha imaginação enquanto procuro outras palavras para substituir estas, como se eu pudesse substituir o que estou sentindo. Vontade mesmo é a de esperar você na porta da faculdade, com um ramalhete de rosas, pegar o seu celular e jogá-lo fora, raptá-la e trazê-la pra minha casa e no dia seguinte ao acordarmos lhe dizer bom dia. Acho que isto resolveria boa parte do que eu pretendo para o seu dia. Só depois eu iria pensar no que restaria da vida, no que restaria do resto do mundo, provavelmente eu torceria para que chovesse que faltasse luz, que o seu patrão inexistisse e que eu não precisasse de palavras para desejar-lhe boa tarde. Que o meu olhar fosse um olhar eterno de felicidade e de preferência com champanhe. Eu quereria que o céu ficasse azul, que a gente pudesse cantar juntos aquela música que você gosta, que depois a gente ficasse em silêncio, e que o dia custasse a acabar. Mas nada disto é real. Não haverá flores, não haverá rapto algum, não haverá telefonema, nem chuva, também o céu não vai ser o que eu pretendo, não vai haver a canção que cantaríamos juntos.
Pensando bem, acho que o dia não vai ter a menor graça pra mim, mas mesmo assim espero que o seu dia seja bom, desde que você pense que pode receber flores, receber um telefonema logo cedo, que o céu possa ficar menos cinza, talvez você se pegue cantando alguma música e ria por isto. Quem sabe você esteja à beira de ser raptada, quem sabe, eu esteja mais perto do que você pensa, do outro lado da rua, tomando um café, talvez eu esteja carregando um guarda-chuva quem sabe, eu esteja carregando uma grande ilusão que nem tenho palavras para descrever. Quem sabe estejamos à beira de nos apaixonarmos. Nunca se sabe. Se eu pudesse trocar todas estas palavras que escrevi até agora por outras eu não as trocaria, as deixaria aqui ainda que nem as remetesse a você, ainda que você nunca as supusesse, mas palavras só existem quando são lidas, portanto, não tenho o direito de apagá-las, já que as escrevi.
Ah, só uma coisa antes de eu dormir. Não esqueça de amanhã levar consigo um guarda-chuva. Vai que chove, que alguém rapte você, que falte luz, quem sabe, eu esteja no meio da rua todo molhado com um buquê de rosas na mão olhando pra você e você, sem saber o porquê esteja cantando uma música e me diga displicentemente:“bom dia moço!” Sei lá... Nunca se sabe...



São Paulo, 27/10/09

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