sábado, 2 de julho de 2016

Desde quando

Desde quando lembro de mim minha casa era enorme. O teto era quase tão alto quanto o céu e eu corria por um quintal imenso, indo e vindo com uma bola ou uma patinete, até me cansar.
Desde quando lembro de minha infância, as ruas eram tão largas que a gente jogava futebol e nela cabiam todos os moleques da rua.
Desde quando lembro de mim, ir para a escola era além da diversão, era uma viagem deliciosa com minha mãe me segurando pela mão por um caminho interminável que hoje sei que é logo ali a três esquinas depois da minha casa.
Desde que me entendo por gente, conheço palavras como: Por favor, e obrigado.
Desde que me entendo por gente acredito que as pessoas mais velhas têm que serem respeitadas.

* * *

Hoje, vejo como minha casa é pequena e o teto é muito mais baixo do que eu via. Hoje tudo é mais curto e bem menos longe. Atualmente o céu é muito mais aqui e muito menos lá.
A sala da minha casa fica mais perto do quarto, o portão mais perto do quintal que hoje cabe em menos de quatro passos meus.
Hoje sou menos cabelos e não consigo jogar bola durante meia hora nem mesmo naquele quintal, agora minúsculo.
Hoje sou lembrança daquele tempo quando o futuro não importava. Agora o dia seguinte importa.
Antes não era necessário pensar no amanhã.
Hoje o amanhã é um quem sabe, um talvez.
                                                                                   
Antes, o amanhã era só acordar de novo para brincar.
Pão com mortadela era uma festa e refrigerante era sinônimo de domingo.
Hoje, o amanhã é uma esperança do tamanho da antiga casa e o domingo não tem mais o gosto do gosto que tinha quando nem precisava ser domingo.

* **

Eu nunca pensava em ser velho suficiente para escrever sobre o passado. Eu pensava em aprender a beijar na boca, depois eu pensava em ser adulto, depois eu pensava em fazer a barba e em ter filhos, como seria. Nunca imaginei ter netos. Ter netos era uma bobagem que só interessava aos velhos, e eu não era velho.

* * *

De repente acordei com meus cabelos esbranquiçados. Achei que não era verdade.  Pensei que era defeito do espelho. Voltei à minha antiga casa onde tudo era imenso, era. Hoje a varanda fica muito perto da porta de entrada e entre o portão e a rua o espaço só é maior por que eu caminho mais devagar do que quando criança. Agora demoro mais tempo para chegar à rua onde eu e a molecada jogávamos bola. Paro, olho e me revejo ali, eu e meus amigos de infância, imberbes, escutando nossas mães nos chamarem para voltarmos pra casa. A gente jogava peão, disputava par ou ímpar para saber que iria ser o primeiro a jogar bola de gude. A rua agora é rua mesmo. Antes ela era um campo de futebol sem grama, as traves eram quatro tijolos, dois de cada lado, a grama eram paralelepípedos e a torcida eram todas as meninas que nunca vimos na torcida, mas que no fundo nós jogávamos para elas, supondo que elas estivessem torcendo por nós. Abri a geladeira e encontrei cerveja que nada tem a ver com o gosto de guaraná, mas bebi mesmo assim.

* * *

Vejo o passado com olhos de criança, coração de criança e revivo tudo novamente, só que numa proporção menor. Agora vejo o passado, coisa que em criança não existia. Só havia hoje e amanhã. Não havia desilusão e amanhã eu sempre poderia recuperar as minhas bolinhas de gude que eu perdera no dia anterior

* * *

Agora, sentado, quieto, ajeitando minha cadeira pra onde o sol me esquenta, vejo meu neto jogando bola naquele mesmo quintal. Ele corre e corre e o quintal pra ele é imenso. Às vezes ele olha para o céu e percebo o quanto o céu é longe pra ele. Para irmos até a esquina eu digo que ele tem que ir de mão dada comigo porque é longe. Longe nada. É logo ali. Meu neto tem que dar mais do que o dobro de passos do que eu, mas ele se diverte passeando até a esquina. Pra ele é quase uma viagem. Pra ele eu sou grande, pra ele a esquina é longe e o céu é muito lá em cima, onde moram as pessoas que ficam velhas. Sorrateiramente saio, vou até aquela esquina compro uma garrafa de guaraná, dou pra ele e observo-lhe sorvendo o tempo quando ele talvez se lembre desse doce gosto,
Quando vejo meu neto virar a cabeça para cima ao tomar o refrigerante, vejo que quando ele não fecha os olhos para olhar para o céu o guaraná escorre pela sua boca assim como o tempo escorre pela gente. Para o meu neto o céu ainda não é o caminho mais curto para onde a gente vai depois que envelhece. Ele não sabe que vai envelhecer nem que a casa vai ficar pequena, que o teto vai ficar baixo, que a rua vai encolher e que ele também um dia irá voltar a virar céu, bem aqui em baixo, dentro dos corações de novas crianças que vão jogar bola, disputar bolinhas de gude, soltar pipa e olhar para o céu, vendo apenas o futuro ou sei lá o que... Tudo contido no gosto que vem de dentro de uma garrafa de guaraná!


Julho/2014

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