Desde quando lembro de mim minha casa
era enorme. O teto era quase tão alto quanto o céu e eu corria por um quintal imenso,
indo e vindo com uma bola ou uma patinete, até me cansar.
Desde quando lembro de minha infância,
as ruas eram tão largas que a gente jogava futebol e nela cabiam todos os
moleques da rua.
Desde quando lembro de mim, ir para a
escola era além da diversão, era uma viagem deliciosa com minha mãe me
segurando pela mão por um caminho interminável que hoje sei que é logo ali a três
esquinas depois da minha casa.
Desde que me entendo por gente, conheço
palavras como: Por favor, e obrigado.
Desde que me entendo por gente acredito
que as pessoas mais velhas têm que serem respeitadas.
* * *
Hoje, vejo
como minha casa é pequena e o teto é muito mais baixo do que eu via. Hoje tudo
é mais curto e bem menos longe. Atualmente o céu é muito mais aqui e muito
menos lá.
A sala da minha casa fica mais perto do
quarto, o portão mais perto do quintal que hoje cabe em menos de quatro passos
meus.
Hoje sou menos cabelos e não consigo
jogar bola durante meia hora nem mesmo naquele quintal, agora minúsculo.
Hoje sou lembrança daquele tempo quando
o futuro não importava. Agora o dia seguinte importa.
Antes não era necessário pensar no
amanhã.
Hoje o amanhã é um quem sabe, um talvez.
Antes, o amanhã era só acordar de novo
para brincar.
Pão com mortadela era uma festa e
refrigerante era sinônimo de domingo.
Hoje, o amanhã é uma esperança do
tamanho da antiga casa e o domingo não tem mais o gosto do gosto que tinha
quando nem precisava ser domingo.
*
**
Eu nunca pensava em ser velho suficiente
para escrever sobre o passado. Eu pensava em aprender a beijar na boca, depois
eu pensava em ser adulto, depois eu pensava em fazer a barba e em ter filhos, como
seria. Nunca imaginei ter netos. Ter netos era uma bobagem que só interessava
aos velhos, e eu não era velho.
* * *
De repente acordei com meus cabelos
esbranquiçados. Achei que não era verdade.
Pensei que era defeito do espelho. Voltei à minha antiga casa onde tudo
era imenso, era. Hoje a varanda fica muito perto da porta de entrada e entre o
portão e a rua o espaço só é maior por que eu caminho mais devagar do que
quando criança. Agora demoro mais tempo para chegar à rua onde eu e a molecada
jogávamos bola. Paro, olho e me revejo ali, eu e meus amigos de infância,
imberbes, escutando nossas mães nos chamarem para voltarmos pra casa. A gente
jogava peão, disputava par ou ímpar para saber que iria ser o primeiro a jogar bola
de gude. A rua agora é rua mesmo. Antes ela era um campo de futebol sem grama,
as traves eram quatro tijolos, dois de cada lado, a grama eram paralelepípedos
e a torcida eram todas as meninas que nunca vimos na torcida, mas que no fundo
nós jogávamos para elas, supondo que elas estivessem torcendo por nós. Abri a
geladeira e encontrei cerveja que nada tem a ver com o gosto de guaraná, mas
bebi mesmo assim.
* * *
Vejo o passado com olhos de criança,
coração de criança e revivo tudo novamente, só que numa proporção menor. Agora
vejo o passado, coisa que em criança não existia. Só havia hoje e amanhã. Não
havia desilusão e amanhã eu sempre poderia recuperar as minhas bolinhas de gude
que eu perdera no dia anterior
* * *
Agora, sentado, quieto, ajeitando minha
cadeira pra onde o sol me esquenta, vejo meu neto jogando bola naquele mesmo quintal.
Ele corre e corre e o quintal pra ele é imenso. Às vezes ele olha para o céu e
percebo o quanto o céu é longe pra ele. Para irmos até a esquina eu digo que
ele tem que ir de mão dada comigo porque é longe. Longe nada. É logo ali. Meu
neto tem que dar mais do que o dobro de passos do que eu, mas ele se diverte
passeando até a esquina. Pra ele é quase uma viagem. Pra ele eu sou grande, pra
ele a esquina é longe e o céu é muito lá em cima, onde moram as pessoas que
ficam velhas. Sorrateiramente saio, vou até aquela esquina compro uma garrafa
de guaraná, dou pra ele e observo-lhe sorvendo o tempo quando ele talvez se
lembre desse doce gosto,
Quando vejo meu neto virar a cabeça para
cima ao tomar o refrigerante, vejo que quando ele não fecha os olhos para olhar
para o céu o guaraná escorre pela sua boca assim como o tempo escorre pela
gente. Para o meu neto o céu ainda não é o caminho mais curto para onde a gente
vai depois que envelhece. Ele não sabe que vai envelhecer nem que a casa vai
ficar pequena, que o teto vai ficar baixo, que a rua vai encolher e que ele
também um dia irá voltar a virar céu, bem aqui em baixo, dentro dos corações de
novas crianças que vão jogar bola, disputar bolinhas de gude, soltar pipa e
olhar para o céu, vendo apenas o futuro ou sei lá o que... Tudo contido no
gosto que vem de dentro de uma garrafa de guaraná!
Julho/2014
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