Dizem que amanhã será dia dos pais; quando os
filhos têm obrigação de comprar um presente para eles, bobagem. Não preciso que
minhas filhas liguem para mim, em vários sentidos. Ligar por intermédio do
telefone, nem ligar pelo fato de terem cuidado em relação a mim. Não precisam
ligar até porque eu não ligo para isso. Adoro quando minhas filhas me ligam em
um dia qualquer de um mês qualquer para dizerem a mim que me amam, ou para
pedirem a bênção porque vão viajar. Aí é dia dos pais.
Acho que minhas
filhas não irão escrever nada para mim amanhã, daí vem a graça de eu escrever
para elas hoje. Não se trata de ausência, mas de estar por perto, mesmo quando
longe. Trata-se de rezar sem precisar ser rezado, de olhar de bem perto enquanto
elas estavam aprendendo a andar de bicicleta e eu sabendo que elas iriam cair.
O tombo faz parte do andar de bicicleta e faz parte do pai levantar a bicicleta
e deixar a filha se arriscar de novo. Isso faz o orgulho do pai que olha de
longe, sentado no banco da praça vendo-a aprender a fazer primeira curva sozinha
e depois fazer a mesma coisa com uma mão só. Depois tudo o que sua filha lhe
pede é um sorvete para ser lambido, sequer lembrando que o joelho está todo esbagaçado.
Amanhã será
dia dos pais, estou feliz. Acho que ninguém irá ligar pra mim, ligar pelo
telefone ou ligar no sentido de se importar comigo. Não tem problema.
Amanhã vou
andar de bicicleta, segurando o guidão com só uma mão e com a outra irei acenar
sozinho para o céu agradecendo a Deus por eu ter podido saborear um sorvete com
elas quando elas aprendiam a andar de bicicleta e eu aprendia a ser pai. Depois
será segunda-feira. Não será mais dia dos pais... Será que não será?
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