Eu
não escrevo. Alguém escreve por mim. Alguém que me procura e que canta ao meu ouvido
palavras. E esse alguém me pede para que eu as escreva antes de ir-me dormir.
Não escrevo, simplesmente ouço e redijo o que ouço. Recolho grãos, um por um a um, tecla por
tecla e tento combiná-las de forma que façam sentido dentro do que me dita o, às vezes, vão
pensamento.
Não busco letras
na minha máquina de datilografar. Alguém sopra meus dedos que deslizam e deles
saem palavras que sinceramente não escrevo – transcrevo, anoto.
Quem será que escreve? Eu (?), não!
Não
durmo, não consigo. Sou dominado pela insaciedade de transcrever o que meus
ouvidos ditam para minha inconsciência.
A
máquina de datilografar imprime o que eu ouço. É ela que escreve inventando palavras que nem sempre eu sei o que significam.
Que
bom ter uma máquina de datilografar palavras! Mesmo as que não existem.
Acho que durmo agora, logo agora. [...?]
(Cinco
e quinze da manhã de uma sexta-feira)
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