sábado, 2 de julho de 2016

Escritores


Escritores podem ser mudos
Escritores podem ser loucos
Escritores só não podem deixar de amar
Escritores não podem deixar de amar palavras
Nem precisam ser palavras de amor
Podem ser palavras de resiliência
Podem ser palavras de nada.

Escritores podem escrever sobre nada
Só não conseguem parar de escrever
Como uma necessidade física
Como a fervura de uma água
Como precisar chegar ao cume da montanha
Como se sempre houvesse uma montanha
A ser escalada com palavras.

Escritores podem ser surdos
É até bom que sejam mesmo
Para que não sejam interpelados por ninguém
Enquanto escrevem seus versos, suas palavras.
Para que não escrevam nada além do que ouvem
Que vem de dentro de si mesmos,
Quietos, calados.

        
Escritores podem morrer-se, reviver-se
Desde que não parem de escrever.
São fadados a esta sina
Somos como escorpiões que mesmo sabendo
Que morrerão na enchente
Picam a barata que lhos traz nas costas
Depois pedem perdão e dizem:
“Desculpe-me. Esta é a minha sina”.

Escrever é um sacrifício diário
No meu caso noturno, por vezes soturno.
Olhar para a página em branco proporciona medo
Mas também causa excitação
Saber que as palavras estão à sua disposição
Que basta escrevê-las para poder dormir depois
Sem fazer ideia de quem irá lê-las.

Escrever é tão somente, um juntar de letras
Que se transformam num juntar de palavras
Que se transformam num juntar de frases
Que se transformam num juntar de ideias
Que se transformam num juntar de páginas
Que se transforma num juntar de gente
Que lê quem escreve. Simples assim.

Jul/2015








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