sábado, 2 de julho de 2016

Perfume


      
Então a língua encostou-se à outra língua que se deixou encostar e passeou pelo rosto dele, cuja pele arrepiou-se e começou a suar e o suor da pele de seu rosto e saciou a sede dela que lambeu mais do que o rosto desceu até onde ele estremeceu e ele suou mais suor e quis mais língua mais língua dela e ela de olhos fechados passeou-lhe o resto do corpo com a língua úmida depois mais abaixo e mais abaixo ainda encontrou a parte também querente de língua e ela toda, ambos de olhos fechados, ainda que a luz apagada lhes concedesse a omissão do pecado, de todos eles, lamberam-se como para matar a mútua sede da água salgada pelo sal deles e se lamberam e se chuparam e se morderam e se confessaram antes de se penetrarem ela nele ele nela, não o corpo, mas as almas penetradas esvaziando-se e transbordando-se em sua volúpia, finalmente expurgando seus pecados, secando-se com suas línguas e depois novamente suando e assim foi a noite toda até que o dia os denunciou, e com a claridade, se olharam e se lamberam novamente de cima até embaixo de olhos abertos e se penetraram novamente ele a ela, ela a ele, agora calados. Não lembro bem do resto, mas lembro que era inverno e que chovia. Acho que depois dormiram juntos mais tarde, não sei que horas eram, vi ainda pelo furo da fechadura que dentro do quarto eles respiravam calmos, inalavam um ao outro, enfim vivos, ambos eram um só. Ela e ele, ele e ela. E eu ali do lado exterior da fechadura apenas observando e tentando aprender como que é amar.

(Influenciado pelo livro: “O perfume”
do escritor alemão Patrick Süskind)


25/01/11

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