Agora deve ser sete e meia, talvez oito da manhã. Suponho
isto porque é mais ou menos nesta hora em que os bem-te-vis costumam frequentar
a minha casa e os outros pássaros cantam do lado de fora da minha janela, que
por estar aberta, também deixa entrar o sol de outono. Então, finalmente é
outono e tudo muda. A cor do céu, a temperatura, o jeito das pessoas, os
corações parecem que também se preparam para um novo inverno. A janela deixa
entrar um ar fresco que me incita a dar uma arrumada na casa, deixar a luz entrar
pelos cômodos que ficaram fechados, abrir as cortinas da sala, e perceber que
uma planta que morava em cima da mesa do centro da sala agora jaz intensamente
morta, mas também era uma flor de primavera, era uma “flor-de-sentimento” não
podia mesmo durar para sempre. Talvez ela já tivesse morrido fazia tempo, e eu
só precisasse ter aberto a janela para ter notado isto.
Coincidência ou não, peguei uma coisa que estava
guardada e que eu sabia que morava no mesmo lugar onde, desde o verão passado
eu reservara e como era de vidro, não derreteria, eu sabia. Continuava lá no
mesmo lugar desde o verão. Peguei o embrulho, levei até a sala, e por algum
motivo o embrulho que não derretia caiu da minha mão. Não derretia, eu sabia,
mas podia se quebrar, e justamente quando eu, distraidamente, olhava para o sol
entrando pela janela aberta, aconteceu!
Durou não mais do que um segundo, em algum momento
entre sete e meia e oito da manhã de um dia qualquer do outono.
Ouvi apenas o som do vidro se quebrando enquanto o
pacote pareceu meio disforme, mas eu não o abri, sabia o que havia acontecido,
O vidro se quebrara no outono, mas não fazia mais diferença. Fazia sim, só um
pouquinho de frio, frio que o sol logo se encarregaria de dissipar. Então,
entendi que a flor-de-sentimento morrera e que o vidro se quebrara. Não era
preciso fazer perguntas, tampouco obter respostas, estava tudo claro. A flor
tinha cumprido sua função e o vidro também. Não desembrulhei o que em outro
tempo fora um presente que eu mesmo comprara no verão passado e que ficara para
ser entregue em certa ocasião, ocasião que não resistiu ao tempo, nem resistiu
ao outono. Eram duas coisas iguais, a flor e o vidro, cada uma do seu jeito. Primeiro
me desfiz da planta, mas antes ainda dei uma olhadela para lembrar como era fora
bonita, viçosa, colorida e perfumada, depois, com a outra mão abaixei-me e
senti os cacos do vidro fazendo barulho, como se fossem os pedaços do passado
se fazendo ouvir pela última vez.
Valeu a pena cada pétala daquela flor que viveu e floresceu
comigo assim como cada caco de vidro que se quebrou e que eu segurei sem olhar
por dentro, assoviando uma música que outrora eu assoviara por algum outro
motivo... Uma música cujo nome não me lembro, mas tenho certeza de que é do
Gonzaguinha, como poderia ser da Fátima Guedes, se bem que isto nem tenha mais
importância alguma... Agora lá fora o dia estava lindo!
Alguém, que eu não sei quem, irá levar embora os cacos
de vidro do que antes era um presente, mas que agora são apenas pedaços, e irá
levar também a flor. Ambos a flor e o vidro sabiam a hora de irem embora.
Depois será de novo inverno, depois será novamente primavera e novamente haverá
flores e novamente haverá para quem oferecer presentes de vidro, novamente
haverá o fechar a janela e deixar que o amor entre e dentro de mim fique
trancado durante outro verão, sem que eu me preocupe com o que se chama de
vida. E eu haverei de comprar outras flores e outros presentes de vidro e
novamente, em casa, ter mais recordações da vida e de amores. Seja outono ou
não.
P.S.: Lembrei-me da música: “Vida, vida, vida, que
seja do jeito que for... Se é dor quero um mar dessa dor”.
24/04/10
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