domingo, 3 de julho de 2016

Flor e vidro

Agora deve ser sete e meia, talvez oito da manhã. Suponho isto porque é mais ou menos nesta hora em que os bem-te-vis costumam frequentar a minha casa e os outros pássaros cantam do lado de fora da minha janela, que por estar aberta, também deixa entrar o sol de outono. Então, finalmente é outono e tudo muda. A cor do céu, a temperatura, o jeito das pessoas, os corações parecem que também se preparam para um novo inverno. A janela deixa entrar um ar fresco que me incita a dar uma arrumada na casa, deixar a luz entrar pelos cômodos que ficaram fechados, abrir as cortinas da sala, e perceber que uma planta que morava em cima da mesa do centro da sala agora jaz intensamente morta, mas também era uma flor de primavera, era uma “flor-de-sentimento” não podia mesmo durar para sempre. Talvez ela já tivesse morrido fazia tempo, e eu só precisasse ter aberto a janela para ter notado isto.
Coincidência ou não, peguei uma coisa que estava guardada e que eu sabia que morava no mesmo lugar onde, desde o verão passado eu reservara e como era de vidro, não derreteria, eu sabia. Continuava lá no mesmo lugar desde o verão. Peguei o embrulho, levei até a sala, e por algum motivo o embrulho que não derretia caiu da minha mão. Não derretia, eu sabia, mas podia se quebrar, e justamente quando eu, distraidamente, olhava para o sol entrando pela janela aberta, aconteceu!
Durou não mais do que um segundo, em algum momento entre sete e meia e oito da manhã de um dia qualquer do outono.
Ouvi apenas o som do vidro se quebrando enquanto o pacote pareceu meio disforme, mas eu não o abri, sabia o que havia acontecido, O vidro se quebrara no outono, mas não fazia mais diferença. Fazia sim, só um pouquinho de frio, frio que o sol logo se encarregaria de dissipar. Então, entendi que a flor-de-sentimento morrera e que o vidro se quebrara. Não era preciso fazer perguntas, tampouco obter respostas, estava tudo claro. A flor tinha cumprido sua função e o vidro também. Não desembrulhei o que em outro tempo fora um presente que eu mesmo comprara no verão passado e que ficara para ser entregue em certa ocasião, ocasião que não resistiu ao tempo, nem resistiu ao outono. Eram duas coisas iguais, a flor e o vidro, cada uma do seu jeito. Primeiro me desfiz da planta, mas antes ainda dei uma olhadela para lembrar como era fora bonita, viçosa, colorida e perfumada, depois, com a outra mão abaixei-me e senti os cacos do vidro fazendo barulho, como se fossem os pedaços do passado se fazendo ouvir pela última vez.
Valeu a pena cada pétala daquela flor que viveu e floresceu comigo assim como cada caco de vidro que se quebrou e que eu segurei sem olhar por dentro, assoviando uma música que outrora eu assoviara por algum outro motivo... Uma música cujo nome não me lembro, mas tenho certeza de que é do Gonzaguinha, como poderia ser da Fátima Guedes, se bem que isto nem tenha mais importância alguma... Agora lá fora o dia estava lindo!
Alguém, que eu não sei quem, irá levar embora os cacos de vidro do que antes era um presente, mas que agora são apenas pedaços, e irá levar também a flor. Ambos a flor e o vidro sabiam a hora de irem embora. Depois será de novo inverno, depois será novamente primavera e novamente haverá flores e novamente haverá para quem oferecer presentes de vidro, novamente haverá o fechar a janela e deixar que o amor entre e dentro de mim fique trancado durante outro verão, sem que eu me preocupe com o que se chama de vida. E eu haverei de comprar outras flores e outros presentes de vidro e novamente, em casa, ter mais recordações da vida e de amores. Seja outono ou não.

P.S.: Lembrei-me da música: “Vida, vida, vida, que seja do jeito que for... Se é dor quero um mar dessa dor”.




24/04/10

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