Foi-se o tempo quando a gente ouvia as
modas de viola vindas direto da fonte. Uma parte do povo não se importava
muito, apesar de ser uma reunião de amigos. Eram sábados ou domingos, não fazia
diferença, era sempre quando.
* * *
Gosto, nem sei se gosto, mas possuo o
hábito de rever gavetas não necessariamente de documentos. Gavetas de fotos,
gavetas de roupas, todas as gavetas do passado. Nelas encontro coisas que acabo
jogando fora de tão velhas, nelas encontro coisas que redobro e reguardo até outro
futuro quando quererei rever o passado. Sei que o “hoje” amanhã fará parte do
passado e é bom colocar data em tudo, dizia meu pai, porque amanhã, já fará
diferença, nunca me esqueço disto. Hoje abri uma gaveta nem de roupas nem de
fotos. Uma gaveta de música, de música não, de um amigo que tocava música. Aí vieram
o passado, e o cheiro deles. Do passado e do amigo. Um cara simples em tudo, no
jeito de falar, no jeito de ter amigos, no jeito de conquistar as pessoas. Morreu
cantando, assim mesmo, cantando. Morreu feliz. Despediu-se do pessoal dizendo:
Até amanhã, se Deus quiser! Não deu.
Eu
não converso com ninguém, nem com você, leitor, mas como você faz parte do meu
presente nada mais justo do que dividir a minha gaveta com você. São três da
manhã e percebo o quanto o passado nos faz saber que a vida vale a pena. Um dia
saberemos o quanto valeu, mas ainda podemos usar o verbo no presente, já que o
verbo é Deus. Alguém me deu a notícia de que um amigo íntimo falecera e
escreveu que era pra eu me despedir dele ao meu jeito. Não consigo. Eu deixo
que a morte siga a sua vida. Ele tá por aí, talvez esteja morando em Paris,
como disse Tom Jobim ao saber da morte do Vinícius.
Ironicamente, hoje abri uma gaveta e
encontrei outro amigo e pasme, senti-o vivo como naqueles fins-de-semana ou
durante as noitadas quando a gente ficava ouvindo-o cantar e contar os “causos”
que pra gente até pareciam verdades inventadas, mas para ele eram verdades verdadeiras.
Não comemoro aniversário, detesto medir
o tempo com fita métrica. Adoro revirar gavetas sempre que é maio. Sinto-me
feliz por ter gavetas a serem reviradas e rearrumadas. Gastei quase todo o
dinheiro que eu tinha guardado com minha pseudo-festa. Festa de uma pessoa só.
Eu e mim mesmo. Comidinha japonesa, um champanhezinho, como de costume. (Ainda
sei com comer usando hashi). Não rezei, assim, rezar, sabe? Só agradeci por
estar vivo. Ano que vem, talvez eu reze, mas nada prova isto. Enfim, não
hipocritamente, gostei de ter dividir o sashimi e o champanhe comigo mesmo.
Acredito que estavam todos aqui comigo, cada
um ao seu modo, no seu lugar dentro da gaveta do meu coração (...E você sabendo
disto. Perfeito!)
Coisas
de Ary Costa.
Friburgo/2015
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