sábado, 2 de julho de 2016

Eu era quinze

 Eu era quinze, ela pelo menos duas vezes mais quinze.
Ela poderia ser minha professora de português ou de matemática, tanto fazia, eu era apenas seu aluno.
Eu tremia só de vê-la e supor que ela pudesse descobrir o que eu imaginava ao ver seus olhos de um verde meio pálido, sua boca de um vermelho discreto, seus peitos e joelhos perfeitamente decorando seu vestido cuja cor era talvez amarelo, tanto fazia. Seu andar era mais lento do que o relógio poderia prever em segundos e não ver o que eu via quando a via entrando na sala de aula. Ela não precisava saber, mas eu não me continha em sentir.
Eu era quinze e ela exalava um perfume de rosas frescas quando entrava na sala de aula. Sua bunda fazia uns movimentos tão arredondados quanto os de uma roda-gigante, que subia e descia e girava no meu devaneio de quinze anos, eu era quinze, queria ser no mínimo dezesseis ou quem sabe alguns mais quinze.
Foi assim até que minha boca aproximou-se dela pela primeira vez e senti seu hálito que não era de flores, mas de cigarro fumado provavelmente escondido sempre sem a presença dos alunos. – Comecei a fumar escondido pensando se ela me notaria também o hálito -.
No verão de mil novecentos e setenta e dois, precisei de aulas particulares, não por necessidade real, e sim dela. Fui à sua casa, sinceramente me sentindo seu primeiro amante, capaz de fazer-lhe todas as vontades e esvaziar-me de todas as minhas necessidades. Nada aconteceu, apenas constatei que ela realmente fumava em sua casa, eu sentia todos os cheiros misturados, tanto do cigarro quanto o da fragrância de rosas.
Inteligentemente fingi-me néscio para ficar mais tempo me deliciando daquelas aulas totalmente sem importância, nas quais eu mais prestava total atenção nas coxas dela e nenhuma na lição. Voltava para casa me sentindo como se a tivesse seduzido, quando eu deixava que ela percebesse (ou não) que eu ficava aturdido quando eu, sentado ao seu lado pulsava por dentro das minhas calças ainda curtas.
Finalmente, eu agora dezesseis, ela um ano mais do que aqueles de outro ano, foi assim que em sua casa me ofereceu para que eu ficasse um pouco depois da aula particular. Eu tremi tanto que não respondi com palavras, apenas com u movimento de cabeça para cima e para baixo, possivelmente com os lábios tremendo, quando ela pediu para que eu esperasse que ela fosse lá em cima e que já voltaria. Tentei completar dezoito anos em dez minutos, inutilmente. Ela desceu pela escada encaracolada com uma roupa de mulher que eu só vira em filmes de cinema em artistas que eu nunca vira pessoalmente. Azul claro, esvoaçante, até o chão, sem sutiã, (isso eu não tinha visto nem em filmes) descalçada, os cabelos molhados, mas penteados de um jeito que a água ainda escorria pelos ombros e o perfume era algo que nunca na escola eu sentira. Pela primeira vez eu supunha que sentira o verdadeiro cheiro de uma mulher. Depois descobri que era de sabonete francês.
        Nunca mais serão cinco e catorze da tarde daquela quarta-feira quando eu tinha dezesseis anos, nunca mais. Nunca mais verei alguns outros olhos do jeito que vi. Tanta ternura, tanto carinho, tanto a me ensinar. Estagnado de qualquer coisa que se possa designar como desejo, expectativa, [....] mantive-me apenas olhando, provavelmente de boca aberta admirando aquela mulher que descia pela escada em forma de caracol e se aproximava tão lenta mas também rapidamente que não me dava tempo de pretender nada além de imaginar que eu estava sonhando – Talvez eu estivesse mesmo -.
...Se foi um sonho, foi assim: Eu transpirava um suor de quase-rapaz enquanto sentia um odor de mulher (sabonete francês). Minha boca não tinha nenhum desejo, mas eu sentia os lábios dela se aproximando lentamente, e seu hálito não era mais de cigarro, era hálito só de saliva. Eu também salivava e logo senti que ela lambia minha saliva com a ponta de sua língua levemente quente, só a ponta da língua nos meus lábios. Eu salivava cada vez mais e involuntariamente por mais outros lugares.
Foi a primeira vez em que senti o gosto do que mora entre as coxas das mulheres. O gosto das gotículas salgadas que escorriam entre seus peitos, atrás de suas orelhas, o sentido de seus gemidos sem palavras, das palavras em seus gemidos, foi a primeira vez em que eu descobri que as bocas das mulheres não servem apenas para sorrir, e os dentes não servem apenas para mastigar. Descobri que meus dedos não serviam apenas para escrever palavras e que as unhas das mulheres não serviam apenas para se passar esmalte, serviam para escrever no corpo da gente e escrever na memória da gente, unhas...
Foi assim que descobrindo uma mulher supus infantilmente a todas ter descoberto.

         * * *

Hoje tenho setenta e oito anos, completo setenta e nove depois de amanhã. Nem me iludo mais com mulheres, nem tenho mais professoras. Ando com um passo mais lento, mas com uma memória olfativa ainda aguçada. Não me privo de olhar para trás quando sinto uma fragrância de rosas que acabara de passar por mim. Dou uma pequena parada, olho para trás, mas logo volto a olhar em direção ao meu destino. Sorrio sozinho, não me preocupo com o que pensem sobre mim. Deixem que eu mesmo cuide disso. Pensar sobre mim. Eu já fui quinze, agora sou muitos mais quinze. Não me esqueço daquele cheiro, daquele momento, daquelas horas posteriores, e muito menos d’Ela. Mas já começo a sentir saudade da vida, como afirmou também com calma e sabedoria Vinicius de Moraes, ainda ele, bem antes desta minha idade.

         * * *
Mulheres são mais que sorrisos mais do que bocas mais do que cheiros e de unhas cravadas nas costas da gente. Mulheres são mais do que a urgência do momento para que sejam completamente amadas. Mulheres são sempre bem-vindas e sempre necessárias. Eu agora sou apenas setenta e oito anos, quase nove mais setenta enquanto que elas, mulheres, todas, são eternas como as rosas e os sabonetes franceses.



Inspirado pelo filme Summer 42
e num certo livro de Gabriel Garcia Marques.

Friburgo, maio de 2014

Nenhum comentário:

Postar um comentário